Você sabia? A história de ‘Pacu’ do Porto, um homem que carregava embriagados
Com uma imagem em baixa resolução e ao som da música “Malandro é Malandro Mesmo”, do grupo Favela, uma reportagem gravada em meados da década de 1990 ganhou repercussão nas redes sociais ao resgatar a figura de um personagem quase folclórico da cultura cuiabana: o Pacu do Porto. A produção é de Midianews. Confira:
Com o nome praticamente inaudível na reportagem e perdido ao longo do tempo, o apelido “Pacu”, uma referência ao peixe típico dos rios da região, não foi o principal elemento que transformou o trabalhador em uma figura marcante do imaginário popular cuiabano.
O que realmente chamou a atenção da população foi a presença constante de seu carrinho de mão, que o acompanhava pelas ruas da cidade e acabou se tornando uma de suas marcas registradas.
Nascido na região de Corumbá, em Mato Grosso do Sul, não há consenso sobre quando Pacu chegou a Cuiabá. Trabalhador braçal, ele atuava como estivador, profissional responsável pelo carregamento e descarregamento de mercadorias das embarcações que circulavam pela região do Porto da Capital.
Segundo o historiador Edenilson Morais, a história de Pacu ganhou força na Capital por meio da oralidade, com diversas versões sobre a vida do trabalhador ganhando força a depender de seu contador.
Com o processo de modernização de Cuiabá e as mudanças na dinâmica econômica do Porto, a trajetória de Pacu começou a se transformar, acompanhando as alterações no cotidiano da região e o fortalecimento da vida boêmia no local.
“O transporte rodoviário substituiu progressivamente a navegação comercial, provocando o declínio econômico da região portuária. Nesse contexto, o Baixo Porto passou a concentrar trabalhadores informais, bares, intensa vida boêmia, prostituição, moradores em situação de vulnerabilidade, pequenos delitos e crescente marginalização social”, ressaltou.
Para manter sua forma de subsistência, Pacu passou a fazer pequenos fretes pela Capital utilizando um carrinho de mão. Com o tempo, porém, surgiram relatos de que ele também transportava pessoas embriagadas encontradas caídas pelas ruas da região.
Segundo o historiador, essas narrativas fazem parte da memória oral construída em torno do personagem.
“Entre esses elementos estão relatos de que amarrava bêbados no carrinho e versões segundo as quais conduzia essas pessoas até locais afastados”, explicou.
Essa é justamente a imagem retratada na reportagem gravada em meados da década de 1990. Exibida pelo programa Cadeia Neles, a matéria mostra o repórter Júlgilas Wladas Albernaz Garcia, conhecido como Flecha, conversando com Pacu, que descreve, em tom descontraído, como acomodava os “passageiros” no carrinho.
“Já ‘tá’ no jeito [o carrinho]. Não vou nem mexer. É a cabeça pra lá e a perna pra cá”, disse Pacu.
Questionado sobre para onde levava os homens transportados, Pacu respondeu apenas que os conduzia a um lugar para dormir. Momentos antes, havia contado que passou o dia percorrendo a cidade, mas ainda não havia encontrado ninguém para transportar.
Em outro momento da entrevista, Pacu faz um pedido à equipe do programa, especialmente ao apresentador Lino Rossi, para ganhar um carrinho de mão novo.
“Olhe para a minha cara. Pode olhar bem firme, eu não sou bandido, eu nunca matei ninguém. O senhor pode me dar um carrinho? […] Não precisa ser novo”, pede, enquanto aponta os defeitos do equipamento que utilizava para trabalhar.
Essa cena, registrada há cerca de três décadas, tornou-se uma das imagens mais conhecidas do personagem e contribuiu para consolidar sua presença no imaginário popular cuiabano.
O resgate da reportagem e a figura controversa
O responsável por resgatar e viralizar a antiga reportagem sobre o Pacu do Porto é o memorialista e pesquisador Francisco das Chagas Rocha, coordenador do Museu da Imagem e do Som de Cuiabá (Misc).
Em entrevista ao MidiaNews, ele contou que adquiriu a fita VHS que contém a reportagem de um antigo acervo audiovisual de Cuiabá. Após restaurar o material, publicou o vídeo no YouTube, em 2018, onde a gravação já acumula mais de 17 mil visualizações.
Anos depois, voltou a compartilhar o conteúdo, desta vez em seu perfil no Instagram. A publicação rapidamente repercutiu entre os internautas e reacendeu o debate sobre a trajetória do Pacu do Porto.
Entre os temas que mais despertaram discussões está o suposto destino dado aos homens transportados por Pacu após serem encontrados embriagados pelas ruas da Capital.
“Determinadas pessoas iam lá no mercado, faziam compra e ele carregava as compras até o carro. Só que, além desse uso constante do carrinho, ele também ficou conhecido por uma outra situação, né? Que ele abusava dos bêbados. Carregava os bêbados para debaixo da ponte e ali ele se satisfazia. Isso é público e notório”, relatou Francisco.
Segundo o pesquisador, a versão de que Pacu cometia abusos sexuais contra homens embriagados alimentou o imaginário popular e fez com que muitas pessoas passassem a temê-lo.
“As pessoas tinham medo de beber demais, principalmente quem estava ali na região do Porto, porque ele não saía para outro lugar. Ele era de lá mesmo”.
Francisco também chamou a atenção para a forma como a televisão retratava personagens populares na época. Para ele, a reportagem do programa Cadeia Neles adotou um tom bem-humorado ao abordar um tema que hoje seria tratado de maneira mais séria.
“Porque eles levaram para o lado da brincadeira, para o cômico. Sem transformar o Pacu naquele cidadão que era um abusador dos bêbados. Hoje em dia, jamais alguém faria uma reportagem dessa forma, mostrando um homem que fazia o que fazia e tratando isso de uma maneira que provocasse risos”, afirmou.
Apesar dos relatos popularizados pela história oral e difundidos por Cuiabá, não há documentos que comprovem os crimes cometidos pelo homem.
A marginalização
Para o historiador Edenilson Morais, mais do que discutir se essas histórias são verdadeiras ou não, a trajetória do Pacu revela como a memória oral constrói personagens simbólicos para representar medos e tensões sociais.
“Revelam como determinada sociedade construiu mecanismos simbólicos para explicar perigos urbanos, disciplinar comportamentos relacionados à embriaguez e produzir personagens que funcionam, simultaneamente, como objeto de humor, medo e advertência moral”.
Segundo ele, antes da repercussão na televisão, Pacu era conhecido apenas na região do Porto. Com a exibição das reportagens, sua imagem ultrapassou os limites do bairro e passou a fazer parte do imaginário coletivo da cidade.
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Historiador Edenilson Morais: “Ao mesmo tempo em que enfatizavam seu aspecto pitoresco e alimentavam a curiosidade popular”
Por outro lado, o historiador destacou que a história de Pacu também evidencia a forma como pessoas em situação de extrema vulnerabilidade costumam ser retratadas pela sociedade e pelos meios de comunicação.
“Ao mesmo tempo em que enfatizavam seu aspecto pitoresco e alimentavam a curiosidade popular, também revelavam sua condição de pobreza extrema”.
Segundo o historiador, a popularização da imagem de Pacu também contribuiu para humanizar o personagem ao revelar diferentes versões sobre sua trajetória.
Ele iniciou a vida em Cuiabá exercendo um trabalho digno como estivador, mas, com as transformações provocadas pela modernização da Capital e o declínio das atividades portuárias, perdeu espaço no mercado formal.
Passou, então, a sobreviver da dinâmica cotidiana do bairro do Porto, tornando-se uma figura popular retratada pela mídia e um símbolo da marginalização social vivida por pessoas em situação de pobreza.
Assim como sua trajetória ganhou notoriedade por meio das histórias transmitidas pela tradição oral, sua morte também passou a integrar esse imaginário coletivo.
Marcado pelo estigma da Aids e vivendo em situação de vulnerabilidade social, Pacu morreu à margem da sociedade, condição que reforçou a construção simbólica de sua figura ao longo dos anos.
“Pacu do Porto não deve ser compreendido apenas como uma curiosidade folclórica, mas como um personagem histórico cuja biografia permite investigar relações entre trabalho, pobreza, exclusão, memória, oralidade, mídia e identidade urbana. Sua permanência no imaginário coletivo demonstra que a história das cidades também é construída pelas experiências daqueles que viveram à margem das narrativas oficiais, mas que permaneceram vivos na lembrança e na tradição oral de sua comunidade”, finalizou. (Midianews)

