Na pandemia, 880 morrem em casa em MT e médico culpa o isolamento

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Neste ano, entre 1º de janeiro e 14 de outubro, o Serviço de Verificação de Óbitos (SVO), da Secretaria Estadual de Saúde, atendeu 880 casos de mortes ocorridas em ambiente domiciliar em Cuiabá, Várzea Grande e cidades da Baixada Cuiabana.

Esse número representa 76% do total de verificações feitas nesse período, que foi de 1.158. E, desse total geral, somente 82 casos receberam a classificação de “causa indeterminada”.

Na ano passado, no mesmo período, 955 corpos passaram pela mesma verificação.

As mortes ocorridas em residências representaram 56%, conforme levantamento feito pela Secretaria de Saúde, a pedido do DIÁRIO.

As causas dos óbitos identificadas nos dois períodos, 2019 e 2020, foram: choque metabólico, hiperglicêmico, cardiogênico e séptico; distúrbio metabólico, arritmia cardíaca, edema agudo do pulmão, câncer, Covid-19 (em 2020), insuficiência respiratória e infarto agudo do miocárdio.

Clínico geral e professor, o médico Marcelo Sandrin diz que esses dados são consequências da política do “fique em casa”, imposta durante a pandemia da Covid-19.

Segundo ele, “uma política que levou as pessoas ao medo de irem aos hospitais buscar o serviço médico e acabar contaminados pelo coronavírus”.

Não esquecendo, claro, da briga política em torno do tratamento que deveria se dar às pessoas contaminadas, se deveria ou não prescrever medicamentos.

“As mortes em casa praticamente dobraram e, infelizmente, os idosos e pacientes com doenças crônicas, mesmo os mais jovens, não tiveram a oportunidade de ser convenientemente atendidos. Pagaram com a vida, pereceram em casa ou buscaram tardiamente a assistência médica”, analisa Sandrin.

O médico lembra que o acesso aos serviços médicos também foi dificultado, com diversas unidades importantes, dentro do sistema público de Saúde, atendendo exclusivamente os casos de Covid-19 e outras praticamente fechadas para as demais doenças.

Sandrin assinala que as mortes em ambiente domiciliar são um fenômeno em diversas partes do mundo.

E nos países onde as regras previam que quem sairia de casa para fazer compras eram os jovens, também se constataram altos índices de óbitos em casa.

Isso porque, segundo ele, os jovens descumpriam as regras e voltavam para casa com a coronavirose, porém assintomáticos, mas com risco de contaminação daqueles que estavam em casa – os doentes e idosos.

No entendimento de Marcelo Sandrin, é necessário não só refletir, mas reconhecer que esse “fique em casa” não foi adequado nem para os casos de coronavírus, muito menos aos pacientes com doenças crônicas.

“Comprovadamente, não deu certo, foi uma política mal conduzida”, completa.

Reforçando, ele lembra que sua análise está sustentada nas causas registradas pelo Serviço de Verificação de Óbitos.

E diz que espera que o “fique em casa” não se repita e que, algum dia, as autoridades que conduziram a questão da pandemia reconheçam “esse grave erro”.

SERVIÇO DE VERIFICAÇÃO –  O SVO é o órgão responsável pela realização de necropsias nos casos de mortes sem conhecimento da causa, ou com diagnóstico de doença não definida ou não identificada.

No caso de Mato Grosso, o serviço funciona no Hospital Universitário Júlio Muller, por meio de convênio com o Estado/Secretaria de Saúde.

Fonte: Diário de Cuiabá