
No melhor estilo “eu sirvo para ser apoiado, mas não sirvo para apoiar”, o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ), contrariando as expectativas dos caciques políticos de Mato Grosso, reafirmou que seus candidatos ao Governo do Estado e ao Senado são, respectivamente, o senador Wellington Fagundes e o deputado federal José Medeiros, ambos do PL.
Ele esteve na feira agropecuária Norte Show, em Sinop (503 km ao Norte de Cuiabá), em evento com conotação político-eleitoral.
No entanto, em sua fala, ele deixou aberta a segunda vaga para o Senado. Neste ano, a Casa elegerá 2/3 de suas 81 cadeiras – 52 senadores estão em fim de mandato ou vão à reeleição. São os casos de Jayme Campos (União), que é pré-candidato ao Governo de Mato Grosso, e Carlos Fávaro (PSD), que deixou o Ministério da Agricultura para disputar a reeleição.
Essa sinalização política, em um evento que deveria ser voltado diretamente ao agronegócio, mas se tornou político-eleitoral, diante do açodamento da disputa interna em Mato Grosso, só afunila ainda mais o distanciamento entre ex-aliados de 2018 e 2022.
Mato Grosso, assim como os demais ligados ao setor produtivo, já deu demonstrações de favorecimento a candidaturas de direita. Em alguns casos, até mesmo de extrema-direita (bolsonaristas).
Em recente entrevista, o ex-ministro, ex-senador e ex-governador Blairo Maggi (PP) deu a receita para que o atual grupo que governa Mato Grosso, desde 2002, encontre espaço na chapa para compor com o senador Jayme Campos. O atual grupo foi reeleito em 2006; em 2010, com Silval Barbosa; em 2014, com Pedro Taques; 2018, com Mauro Mendes e 2022, na reeleição em ambos os mandatos, com Otaviano Pivetta como seu vice,
O governador Otaviano Pivetta (Republicanos), que é candidato à reeleição, a única possível, já que por duas vezes foi vice-governador em 2018 e 2022, e Mauro Mendes, que disputa uma das duas cadeiras ao Senado, estiveram durante a Norte Show, em antes da chegada de Flávio Bolsonaro, no período da tarde. Participaram de um almoço com Jayme Campos e com outro líderes políticos, em uma conversa aparentemente amistosa.
Só que todos ao chegarem à cidade com o discurso de que estão construindo o consenso, visando às disputas eleitorais de outubro próximo. Não admitem, mas se recusam em recuar de suas postulações eleitorais. E, como já escrito em outras disputas eleitorais idênticas, não cabem todos na mesma disputa por serem do mesmo grupo político. Ou terem sido aliados em um passado recente.
Dificilmente, a disputa em Mato Grosso tem o poder de interferir na disputa presidencial, em que pese, em 2022, quando o então presidente Jair Bolsonaro (PL) foi derrotado pelo atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o candidato liberal ter recebido 59,84% dos votos no primeiro e 65,08% no segundo turno.
Já o atual presidente obteve pouco mais de 34,39% dos votos no primeiro turno, e só cresceu pouco mais de 0,53% no segundo turno, atingindo 34,92%.
Em um universo de 155.912.680 de eleitores de 2024, do total do Brasil, Mato Grosso, com 2.588.457 eleitores, representa 1,66% do total do eleitorado. Mas, questão não se trata do volume de votos, e sim do conceito que o agronegócio, que é fundamental para a economia do país, pode representar. Cenário repetido em todos os demais estados que têm sua maior força econômica no agronegócio.
Quano {a realidade política-eleitoral de Mato Grosso, uma eventual disputa dentro da Federação União Progressista, que é o somatório do União Brasil e do Progressista, e principal base de sustentação das candidaturas do grupo hoje liderado pelo governador Otaviano Pivetta que sucedeu Mauro Mendes e pelo visto, com o endurecimento do senador Jayme Campos em manter-se na disputa, deverá ter sua chancela final executada pela Direção Nacional da Federação, restando a dúvida de qual o caminho a cúpula vai seguir: a de candidatura própria pretendida por Jayme ou o apoio a Otaviano Pivetta, como deseja Mauro Mendes.
Entre farpas e vaias entres os pré-candidatos de Mato Grosso e o desdém do presidenciável Flávio Bolsonaro, muito mais interessado em um possível e real apoio financeiro e político do setor produtivo, até as manifestação de apoio durante os discursos inflamados pelo clima de extrema polarização, restaram aos presentes ao evento avaliarem o quanto suas pretensões foram frustradas. Ou, até mesmo, potencializadas – lembra o que costuma dizer o ex-governador: “Ninguém ganha eleição sozinho, ninguém governa sozinho”.
Otaviano Pivetta, Wellington Fagundes e Jayme Campos disputam o mesmo eleitorado, pois são candidatos de direita, enquanto a esquerda no Estado ensaia a candidatura da médica Natasha Slhessarenko (PSD), que pode ganhar pontos com a polarização dos três pré-candidatos, que bem ou mal, caminharam juntos em 2018 e 2022. Agora, estão em palanques distintos e disputando o mesmo voto de sempre.
Flávio Bolsonaro, em sua manifestação à imprensa, se limitou a dizer que espera o reconhecimento do agronegócio ao impulso que teria sido dado ao setor, enquanto presidente da República.
Quando questionado se seria o representante do setor na eleição, o senador carioca – que, nos últimos oito anos, não apresentou sequer um aceno ao setor produtivo, afirmou: “Eu espero que sim. Até em memória (lembrando que o pai dele ainda está vivo), ao que o presidente Bolsonaro fez pelo agro brasileiro, uma via de mão dupla, com o setor aproveitando o ambiente positivo de negócios que tinha no Brasil”, declarou.
Ele ainda disse que o setor cresceu impulsionado por linhas de crédito desburocratizadas do Plano Safra e juros mais baixos. Observou que estava no evento de Sinop para “estreitar laços” e ouvir demandas para formular compromissos que garantam “um agro mais pujante e com maior respeitabilidade internacional”.
Com uma noite longa e cheia de conversas que não podem ser publicizadas, restará à classe política de Mato Grosso fazer do limão a limonada e tentar capitalizar positivamente a visita em termos eleitorais.
Lembrando que as eleições estão distantes e muita coisa ainda pode acontecer até as principais definições. (Diário de Cuiabá)




