Chance de super El Niño sobe para 81% e deixa agro de MT em estado de alerta
O agronegócio de Mato Grosso entrou em estado de alerta após a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) elevar de 63% para 81% a probabilidade de que o atual El Niño atinja intensidade muito forte entre outubro e dezembro deste ano. A atualização, divulgada nesta quinta-feira (9), reforça a possibilidade de um verão marcado por temperaturas acima da média, estiagem prolongada e maior risco de incêndios florestais justamente durante o período decisivo para o plantio da safra 2026/27.
No mês passado, a NOAA confirmou oficialmente o retorno do El Niño. Agora, a agência informa que o aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial se intensificou nas últimas semanas e poderá colocar o episódio entre os mais fortes desde o início dos registros, em 1950. A previsão é de que o fenômeno permaneça ativo pelo menos até abril de 2027.
Maior produtor brasileiro de soja, milho e algodão, Mato Grosso está entre as regiões que mais podem sentir os efeitos do fenômeno. Historicamente, o El Niño reduz as chuvas no Centro-Oeste e aumenta as temperaturas, alterando o calendário agrícola e elevando os riscos para a produção.
Especialistas alertam que o atraso da regularização das chuvas pode comprometer o início do plantio da soja, reduzir a janela da segunda safra de milho e aumentar os custos de produção, principalmente com irrigação, manejo das lavouras e consumo de energia elétrica.
Além dos impactos na agricultura, o fenômeno tende a favorecer a ocorrência de ondas de calor mais intensas e prolongadas.
Segundo o meteorologista Tércio Ambrizzi, diretor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEA-USP), o El Niño altera a circulação atmosférica e potencializa eventos extremos.
“O El Niño acaba favorecendo essa intensidade em algumas regiões que são mais sensíveis à mudança de circulação atmosférica que ele gera. Também favorece o aumento do número de ondas de calor, embora o próprio aquecimento global já esteja contribuindo para isso.”
Apesar do aumento da probabilidade de um episódio muito forte, especialistas ressaltam que isso não significa, necessariamente, uma repetição dos impactos observados em eventos anteriores. A intensidade do fenômeno aumenta a chance de ocorrência dos efeitos típicos, mas a dimensão dos prejuízos dependerá da distribuição das chuvas e da duração dos períodos secos.
No cenário internacional, uma notícia ameniza parte da preocupação do mercado. Após sucessivas boas colheitas, os estoques globais de grãos permanecem elevados, o que pode reduzir oscilações bruscas nos preços caso ocorram perdas localizadas de produção.
Mesmo assim, para os produtores mato-grossenses, a principal preocupação permanece sendo a produtividade. Uma estiagem prolongada poderá reduzir o potencial das lavouras, aumentar os custos operacionais e comprometer a rentabilidade da safra.
Outro setor que acompanha a evolução do fenômeno é o elétrico. Com menos chuvas sobre parte do Centro-Oeste, cresce o risco de redução dos níveis dos reservatórios hidrelétricos, maior acionamento das usinas termelétricas e eventual adoção das bandeiras tarifárias mais caras.
O alerta também chegou à área ambiental. Resolução publicada nesta quarta-feira (8) pelo Comitê Nacional de Manejo Integrado do Fogo estabeleceu prazo de 30 dias para que estados e o Distrito Federal apresentem medidas concretas de prevenção aos incêndios florestais.
A norma determina que os governos identifiquem áreas prioritárias para combate ao fogo, elaborem planos de manejo integrado e regulamentem ações preventivas em imóveis rurais.
Em Mato Grosso, onde Pantanal e Cerrado registraram incêndios de grandes proporções durante o último episódio de El Niño, órgãos ambientais e produtores já acompanham diariamente as previsões meteorológicas para definir estratégias de prevenção e reduzir os impactos sobre uma economia que depende diretamente do agronegócio. (Diário de Cuiabá)