‘Vapes’ estão matando e formando nova geração de dependentes
A família da cuiabana A.L.C., 24, suspeita que ela tenha morrido em decorrência de uma lesão pulmonar causada pelo uso do cigarro eletrônico. Ela morreu no final de dezembro de 2025, na semana das celebrações natalinas.
A mãe dela diz que ainda não está pronta para falar da perda repentina da filha. Moradora do CPA 4, em Cuiabá, a jovem tinha uma vida agitada.
Ela adorava festas. Vivia entre os amigos. Gostava de cerveja, música e cigarro eletrônico. Fazia isso nos finais de semanas, sem comprometer o trabalho e a faculdade. Pelo menos é assim que alguns parentes e amigos a descrevem.
Reprodução

“Não podemos dizer que minha sobrinha tinha uma vida desregrada, mas acredito que já estava viciada nesse cigarro eletrônico”, reforça uma tia.
“Respeito e entendo a decisão minha irmã em não falar, e eu não posso falar em nome dela”, lamenta.
“A acho que a minha irmã se sente culpada. Coisa de mãe”, analisa.
“Já lhe dissemos que não é culpa dela. Tentamos fazê-la entender que a filha era uma adulta, mas isso não faz sua dor e culpa diminuírem”, reforça a tia.
Ela conta que a sobrinha ia muito em sua casa. Ficava na porta, com a prima e os amigos.
“Reuniram-se em grupo e bebiam, enquanto usavam esse tal cigarro eletrônico”, revela a tia.
“Não tínhamos noção do quanto é perigoso à saúde”, lamenta ela.
A jovem começou a ter febre e reclamar de dor e dificuldades para respirar.
“Foi muito rápido. Parecia algo simples, uma gripe, talvez”, recorda a tia.
Poucos dias depois, conforme a tia, a jovem precisou buscar atendimento hospitalar e, três dias depois, morreu por complicações de uma infecção pulmonar.
A tia da vítima diz que nunca ouviu falar em “evali”, a sigla em inglês para a lesão pulmonar associada ao uso de cigarros eletrônicos.
Essa doença, que causa falta de ar (dispneia), tosse, dor no peito, febre, calafrios e problemas gastrointestinais (náuseas, vômitos, diarreia e dor abdominal), pode levar à morte.
Há outras doenças atribuídas aos cigarros por vaporização: bronquite crônica, agravamento da asma, obstrução crônica dos pulmões, bronquiolite obliterante…
Assim como o cigarro tradicional, também seria responsável por causar câncer.
A oncologista clínica Danielle Laperche, diretora da Sociedade Brasileira de Oncologia (SBOC) para a região Centro-Oeste, diz que é preciso partir do princípio de que a inalação de fumaça, nenhum tipo, é saudável.
No caso dos vapes, segundo ela, além dos danos causados pela fumaça quente e úmida inalada, não se tem controle sobre os componentes químicos.
“Se a curto prazo mata e causa uma série de doenças, a longo prazo, com certeza, os riscos são maiores”, avalia Danielle.
A diretora da Sociedade de Oncologia diz que agregar sabores agradáveis, desvinculando totalmente do cheiro do cigarro tradicional, é um dos mecanismos dos fabricantes para atrair os consumidores.
Ao cigarro eletrônico é atribuída a volta do crescimento do tabagismo no Brasil.
“Fez o tabagismo voltar a crescer, assim como as doenças decorrentes”, reclama a diretora da Sociedade de Oncologia.
“Combater esse crescimento exige grande esforço de conscientização da população sobre os riscos da dependência”, assinala Danielle Laperche.
“O principal alerta, atualmente, não é apenas sobre o dano pulmonar imediato, mas o fato de que os vapes estão criando uma nova geração dependente de nicotina”, reforça ela.
A chegada dos vapes está ameaçando décadas de trabalho para se obter o progresso que havia sido conquistado no controle do tabagismo, conforme a representante da SBOC.
CRESCIMENTO – Estagnado desde 2019, o número de fumantes no país voltou a subir em 2024.
Atualmente, 11,6% da população adulta se declaram fumantes de cigarro convencional, contra 9,3% em 2023.
Já o cigarro eletrônico, proibidos desde 2009, saltou do índice médio de 16,8% de experimentação entre jovens de 13 a 17 anos para 29,6%, para essa mesma faixa etária, conforme pesquisa do IBGE de 2024. (Diário de Cuiabá)