El Niño ameaça elevar doenças e lotar unidades de saúde em Mato Grosso
A intensificação do fenômeno El Niño, prevista para as próximas semanas e com permanência até o início de 2027, acendeu um alerta para a Saúde Pública em Mato Grosso. Além de provocar temperaturas acima da média, estiagem prolongada e favorecer queimadas, o fenômeno pode ampliar a circulação de doenças respiratórias, arboviroses e infecções relacionadas às mudanças climáticas, aumentando a procura por atendimento nas unidades de saúde e pressionando a rede pública.
Os primeiros reflexos já começam a ser sentidos em Várzea Grande. A Secretaria Municipal de Saúde registra aumento na procura por atendimento de pacientes com sintomas respiratórios, principalmente gripe, crises alérgicas e agravamento de doenças pulmonares.
“Estamos vivenciando um período de alta incidência de doenças respiratórias em razão das mudanças climáticas. Em um mesmo dia temos calor, frio, tempo seco, neblina intensa e fumaça provocada pelas queimadas urbanas”, afirma a secretária municipal de Saúde, Valéria Nogueira.
Segundo ela, crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas compõem o grupo mais vulnerável às complicações provocadas pelas Síndromes Respiratórias Agudas Graves (SRAG).
Por isso, a principal recomendação continua sendo a vacinação contra a influenza.
“A vacinação evita complicações, reduz internações e pode prevenir casos mais graves. É gratuita e salva vidas”, reforça.
Além da imunização, médicos orientam a adoção de medidas simples capazes de reduzir os impactos do período mais seco do ano.
A hidratação constante, a lavagem nasal com soro fisiológico, a umidificação dos ambientes e a redução da exposição à poeira e à fumaça são apontadas como fundamentais para minimizar os problemas respiratórios.
A médica Thatiane Carvalho Moreira, da Unidade Básica de Saúde Binoca Maria da Costa, orienta que a população também mantenha os ambientes limpos e bem ventilados.
“É importante manter uma boa hidratação, realizar lavagem nasal com soro fisiológico, evitar poeira, fumaça, queimadas e ambientes muito fechados. Em casa, o ideal é utilizar pano úmido na limpeza para evitar levantar poeira”, recomenda.
Atualmente, a vacina contra a gripe está disponível nas 25 unidades básicas de saúde de Várzea Grande para os grupos prioritários definidos pelo Ministério da Saúde, entre eles crianças menores de seis anos, idosos, gestantes, puérperas, profissionais da saúde, professores, indígenas, quilombolas e pessoas com doenças crônicas ou deficiência permanente.
ALERTA INTERNACIONAL – Os riscos provocados pelo El Niño também preocupam organismos internacionais.
Na semana passada, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) emitiu um alerta para toda a América Latina sobre o potencial aumento de doenças relacionadas às alterações climáticas durante o ciclo 2026/2027.
Segundo a entidade, o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico modifica o regime de chuvas e favorece a ocorrência de eventos extremos, como ondas de calor, secas prolongadas, enchentes e incêndios florestais.
Essas condições ampliam significativamente o ambiente favorável à proliferação de mosquitos transmissores de doenças como dengue, zika, chikungunya e malária.
Em algumas regiões, também aumenta o risco de surtos de doenças de transmissão hídrica, como a cólera.
Para Mato Grosso, onde o período seco coincide com a temporada de queimadas, outro fator preocupa os especialistas: a piora da qualidade do ar.
A fumaça produzida pelos incêndios florestais e urbanos, associada à baixa umidade relativa do ar, tende a agravar doenças respiratórias, elevar o número de atendimentos por crises de asma, bronquite e rinite e aumentar as internações de pacientes com doenças cardiovasculares.
PRESSÃO SOBRE O SUS – Especialistas avaliam que os impactos do El Niño vão muito além da elevação da temperatura.
As mudanças climáticas provocadas pelo fenômeno costumam gerar uma combinação de fatores que desafia os serviços públicos de saúde.
O aumento simultâneo de doenças respiratórias, arboviroses, queimaduras, desidratação e problemas relacionados à fumaça pode elevar significativamente a demanda por consultas, exames, medicamentos e internações, especialmente entre crianças e idosos.
A Opas também chama a atenção para outro efeito frequentemente menos visível: os impactos sobre a saúde mental.
Perdas materiais provocadas por desastres climáticos, insegurança alimentar, deslocamentos populacionais e períodos prolongados de estiagem aumentam os casos de ansiedade, depressão e estresse, exigindo reforço na assistência psicológica.
Com a previsão de fortalecimento do El Niño ao longo do segundo semestre, autoridades de saúde orientam que a população mantenha a vacinação em dia, reforce os cuidados com a hidratação, evite exposição prolongada ao calor e à fumaça e elimine criadouros do mosquito Aedes aegypti, numa tentativa de reduzir os impactos sanitários que o fenômeno poderá provocar nos próximos meses em Mato Grosso. (Diário de Cuiabá)
