Delegado que trocou tiros com investigador em Sorriso tem armas recolhidas e é afastado do cargo
A defesa do policial civil Bruno França, que atuava como delegado em Sorriso (a 398 km de Cuiabá), alegou que ele enfrenta sofrimento psicológico e conseguiu na Justiça o afastamento do cargo que ocupava no município. Em nota encaminhada à imprensa nesta sexta-feira (15), os advogados Diógenes Gomes Curado Filho e Emanoel Gomes Bezerra Júnior afirmaram que o policial vivia uma situação de extremo estresse, o que teria resultado na troca de tiros com o investigador Roberto Pinto Ribeiro.
“Nos últimos dois meses, o Delegado Bruno vinha atravessando um período de grave sofrimento psicológico, precipitado por uma crise familiar de alta complexidade, somada ao peso acumulado de anos de trabalho em condições de extrema tensão. Essa combinação de fatores gerou uma deterioração progressiva de sua saúde mental, reconhecida e acompanhada de perto por sua família”, diz trecho do documento.
Bruno foi autuado por tentativa de homicídio e preso pela Corregedoria-Geral na quinta-feira (14). Ele está sob escolta policial em um hospital particular de Sorriso, onde permanece internado após passar por cirurgia para reconstrução de um dedo da mão, ferido durante o tiroteio com o investigador. O delegado foi autuado por tentativa de homicídio qualificado por motivo fútil e emprego de arma de fogo.
Com a decisão judiciária, o delegado Bruno França teve o seu porte de arma suspenso e foi afastado temporariamente de suas funções. A determinação impõe ainda que o policial passe por acompanhamento com um psicólogo para avaliar tecnicamente as condições de saúde mental e a viabilidade de um eventual retorno ao cargo.
Ainda na nota emitida pela defesa, os advogados afirmam que Bruno atua há quatro anos na linha de frente do combate ao crime organizado em um município que enfrenta sérios problemas relacionados a facções criminosas, situação que também estaria impactando diretamente sua saúde mental.
“Os fatos que resultaram na lavratura do Auto de Prisão em Flagrante são inequivocamente reflexo desse quadro de stress. Amigos e colegas de trabalho se deslocaram à residência do Delegado a pedido de sua família, com o único intuito de auxiliá-lo. O que se seguiu foi uma reação de quem, naquele momento, não estava no pleno exercício de suas faculdades mentais”, cita a nota.
O caso
O tiroteio entre Bruno França e Roberto Pinto Ribeiro ocorreu na quarta-feira (13). Equipes da Polícia Militar ouviram diversos disparos enquanto trocavam de turno na sede da unidade, em Sorriso. Diante da situação, os policiais seguiram até a rua de onde vinham os tiros e localizaram o investigador da Polícia Civil, conhecido como “Betão”, armado e visivelmente abalado.
No local, os militares encontraram munições deflagradas espalhadas pela rua, aparentemente de espingarda calibre 12. Os policiais negociaram com Roberto para que ele saísse da residência desarmado. Em seguida, o investigador relatou que Bruno teria ido até sua casa para ameaçá-lo de morte após um desentendimento em um grupo de WhatsApp.
O investigador foi ouvido ainda no início das apurações e posteriormente liberado. Já o delegado está sob custódia policial em uma unidade hospitalar após o confronto. Preso em flagrante por tentativa de homicídio qualificado por motivo fútil, o delegado passará por audiência de custódia mesmo internado.
Sobre o rito do procedimento para presos que não podem se deslocar, o RepórterMT apurou que, quando o custodiado não pode se fazer presente, essa audiência pode ser realizada com o defensor público ou um advogado. Se ele estiver consciente, pode ser submetido à audiência de custódia mesmo no hospital através de videoconferência.
Confira a nota na íntegra:
“O escritório Bezerra & Curado Advogados Associados, na qualidade de patronos constituídos de Bruno França Ferreira, Delegado de Polícia Civil do Estado de Mato Grosso, vem a público prestar os seguintes esclarecimentos acerca dos fatos ocorridos em Sorriso-MT na data de 13 de maio de 2026.
Bruno França Ferreira é Delegado de Polícia Civil há quatro anos, atuando na região de Sorriso com dedicação e empenho reconhecidos pelas autoridades locais, incluindo o Ministério Público e o Poder Judiciário. Nesse período, colocou-se na linha de frente do combate ao crime organizado em um município que enfrenta sérios problemas relacionados a facções criminosas, o que resultou em significativa redução dos índices de criminalidade e em elevado número de prisões e inquéritos concluídos. Trata-se de um profissional que exerce sua função com bravura, muitas vezes sob risco pessoal, a serviço da segurança pública da população de Sorriso.
Nos últimos dois meses, o Delegado Bruno vinha atravessando um período de grave sofrimento psicológico, precipitado por uma crise familiar de alta complexidade, somada ao peso acumulado de anos de trabalho em condições de extrema tensão. Essa combinação de fatores gerou uma deterioração progressiva de sua saúde mental, reconhecida e acompanhada de perto por sua família.
Os fatos que resultaram na lavratura do Auto de Prisão em Flagrante são inequivocamente reflexo desse quadro de stress. Amigos e colegas de trabalho se deslocaram à residência do Delegado a pedido de sua família, com o único intuito de auxiliá-lo. O que se seguiu foi uma reação de quem, naquele momento, não estava no pleno exercício de suas faculdades mentais — o que é reconhecido pela própria Corregedoria-Geral da Polícia Civil de Mato Grosso no despacho que fundamentou a lavratura do flagrante, ao registrar expressamente a preocupação com a condição psíquica do Delegado e afastar a necessidade de prisão preventiva em razão desse contexto.
A defesa, em consonância com a representação formulada pela própria autoridade policial por medidas cautelares alternativas à prisão — afastamento temporário do cargo e suspensão do porte de arma —, requereu ao Juízo Criminal da Comarca de Sorriso a recomendação de que o Delegado Bruno seja acompanhado por profissional especializado, no caso um psicólogo, para avaliar no aspecto clínico a necessidade de afastamento do profissional e eventual retorno. As medidas foram deferidas pela autoridade judiciária.
A família e a defesa do Delegado Bruno França Ferreira aguardam que o sistema de justiça trate o caso com a sensibilidade que a situação exige e apela à imprensa e à sociedade para que o caso seja tratado com responsabilidade e respeito à dignidade da pessoa humana, preservando a imagem de um profissional que dedicou anos de sua vida ao serviço público, e que, como qualquer ser humano, pode sucumbir diante de circunstâncias que superam sua capacidade de suportação.” (Repórter MT)