‘Canabidiol tem que ser fornecido pois há evidências científicas’, diz neurologista

‘Canabidiol tem que ser fornecido pois há evidências científicas’, diz neurologista
Neurologista pediatra, Viviane Quixabeira

Desde 24 de agosto, passou a valer em Mato Grosso a lei da Assembleia Legislativa que regulamenta o uso de medicamentos derivados da maconha na rede pública.

Na prática, remédios à base de canabidiol, um dos componentes da planta da maconha, podem passar a ser distribuídos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para pacientes com prescrição médica. Cabe, agora, ao Ministério da Saúde a inclusão do medicamento para ser tratado pelo sistema.

Remédios à base de maconha são polêmicos no Brasil, pois seus benefícios medicinais ainda estão sendo estudados.  A médica neurologista pediatra Viviane Quixabeira é uma das poucas médicas em Cuiabá que receita o canabidiol.

Ela confirma que mais estudos são necessários, mas diz que o canabidiol, principal remédio derivado da Cannabis sativa, tem muitos benefícios para alguns pacientes. “O que temos de evidência científica é que o canabidiol realmente é efetivo em alguns tipos de epilepsia”.

Confira os principais trechos da entrevista:

MidiaNews – Recentemente, a Assembleia Legislativa tomou a decisão de obrigar o Governo do Estado a oferecer canabidiol na rede pública. O que achou dessa decisão?

Viviane Quixabeira – Tem que ser fornecido, porque para patologias que já têm evidências, é uma opção de tratamento. Temos que dar opções de tratamentos para as famílias. Acredito que o canabidiol é uma medicação promissora para algumas patologias e crianças, então realmente ela tem que estar disponível como opção.

Como uma medicação de qualidade tem todo o processo de extração da planta, acaba sendo uma medicação cara. Infelizmente, muitas pessoas não têm condição de comprar ou não têm um plano de saúde.

MidiaNews – O canabidiol vicia?

Viviane Quixabeira – Os estudos mostram que não. Nos testes que foram realizados em camundongos até o momento, o canabidiol não tem nenhum efeito viciante ou de dependência.

Já o THC não tem definição na comunidade científica, é bem duvidoso. A maioria dos estudos foram feitos com canabidiol e, quando a medicação está em estudo, ela é usada em concentração muito baixa, tipo 0,2%, então ainda não temos esse dado, permanecendo vários pontos de interrogação.

MidiaNews – Por que os medicamentos à base de canabinoides são tão polêmicos?

Viviane Quixabeira – Por conta das evidências. É muito difícil, nos dividimos muito entre prescrever algo que não está documentado na literatura e acabar prescrevendo por uma preferência ou quando a família quer tentar.

Às vezes, tem mães que estudam muito. Sobre o autismo, não há nada cientificamente documentado que o canabidiol vai me ajudar como primeira opção. Se a família chega e fala que quer usar canabidiol, não é a minha primeira opção. Para crises convulsivas, também não é a primeira opção.

Não é de bom tom um médico prescrever algo que ainda não tem todo esse embasamento na comunidade científica, mas tem médicos que agem de outra maneira e defendem o uso, porque, na atuação dele, ele viu resultados.

MidiaNews – Há pessoas que fazem uma relação entre o uso recreativo da maconha com o seu uso medicinal…

Viviane Quixabeira – Não tem nada a ver. O uso recreativo da maconha tem vários efeitos prejudiciais, tem vários efeitos psicotrópicos, alucinógenos, narcórticos.

O canabidiol é uma substância dentro de uma infinidade de substâncias da Cannabis sativa. Então, ela realmente é extraída de forma delicada para conseguir pegar aquela substância específica e usar na criança para fazer uso de algum sintoma clínico.

São coisas bem diferentes. O que a família tem que saber é que não estamos prescrevendo a planta em si, estamos prescrevendo uma substância que está dentro da Cannabis sativa e que tem estudos científicos que mostram os efeitos de medicação com melhora clínica em diversas patologias.

Quando a família tem preconceito, digo que não é assim que funciona. É uma medicação, não é a maconha em si. Estamos pegando um componente que foi estudado, para o qual existem receptores no nosso organismo.

MidiaNews – Em quais situações o canabidiol é receitado?

Paula Shaira/MidiaNews

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“O uso recreativo da maconha tem vários efeitos prejudiciais, tem vários efeitos psicotrópicos, alucinógenos, narcórticos”

Viviane Quixabeira – O que temos de evidência científica é que o canabidiol realmente é efetivo em alguns tipos de epilepsia. Então, prescrevemos para crianças que já usaram outras medicações disponíveis no mercado.

O canabidiol, que usamos a sigla CBD, é um dos mais de cem canabinoides presentes na planta Cannabis sativa. Ele é o principal constituinte da planta.

MidiaNews – Qual o perfil dos pacientes que precisam do tratamento com canabidiol?

Viviane Quixabeira – Temos usado com as epilepsias de difícil controle, que são crianças que apresentam crises epiléticas classificadas como refratárias. A partir do momento que tentamos as medicações disponíveis e a criança não tem controle das crises, classificamos como epilepsia refratária ou de difícil controle. 30% dessas crianças não controlam as crises com a medicação disponível nas farmácias.

MidiaNews – O tratamento com canabinoides tem riscos?

Viviane Quixabeira – Sim. Nós, médicos, trabalhamos com evidências científicas. O canabidiol tem ação no sistema nervoso central e há evidências que ele trata algumas doenças, como epilepsias, espaticidades, dores crônicas e escleoroses múltiplas. Usamos como opção de tratamento para crianças que já usaram todo o tipo de outras medicações disponíveis no mercado.

Muita gente cria a ideia de que é uma planta, que é natural e não tem efeito colateral. Sabemos que não é bem assim. O canabidiol tem efeitos já documentados na literatura que ele causa alteração das enzimas hepáticas no fígado, diarreia, fadiga, vômito e sonolência. É criado o mito de que ele é o salvador da pátria. Antigamente, quando as questões do canabidiol surgiram na mídia, muitas famílias começaram a produzir em casa com autorização do governo, mas atualmente não recomendamos mais isso. Não sabemos as porcentagens de CDB e THC dessas plantações.

Não sabemos quanto vem dessas plantações, as porcentagens de CDB e THC, por isso não indicamos. Para o tratamento das crises, sabemos que o CDB tem que ser puro, em uma dosagem superior a 96%, com pouca porcentagem de THC, porque ele dá um efeito psicotrópico, o que não é legal para as crianças, então não recomendamos o uso, porque ele tem efeitos colaterais e as famílias têm que estar cientes disso.

MidiaNews – Pode explicar a diferença entre o canabidiol (CBD) e o tetra-hidrocanabinol (THC)?

Viviane Quixabeira – A Cannabis sativa tem muitas substâncias dentro dela. O canabidiol foi estudado e visto que ele tem poder medicinal e que nosso organismo tem receptores para ele. O THC é uma outra substância que está dentro da cannabis e que tem um efeito psicotrópico.

O que as pessoas têm que entender é que pegamos uma planta, dentro dela existem muitas substâncias, e dentre elas está o canabidiol e o THC, mas o canabidiol é o que realmente tem ação dentro do nosso organismo com os receptores que estão no sistema nervoso central.

O THC é aquela parte da substância que daria realmente a alucinação, o uso mais recreativo, não tendo efeito no uso medicinal, mas quando vamos estudar, sabemos que o canabidiol é medicinal e o THC não, só que a planta em si tem uma infinidade de substâncias, até tóxicas, por isso não gostamos da produção artesanal, porque não sabemos o que está vindo dali.

MidiaNews – Quanto custa, em média, os medicamentos canabinoides?

Viviane Quixabeira – Antigamente, era muito caro, porque era importado. Girava entre R$ 2 mil a R$ 4 mil. Era muito caro para uma família manter, por isso era necessário o uso judicial. Mas, agora, vem aumentando o número de empresas [que produzem], porque é um mercado muito rentável. É um mercado financeiro que tem recebido muito investimento.

Hoje varia muito. Empresas boas, que tem autorização, variam o preço entre R$ 500 a R$ 2 mil. Na farmácia, há a marca de um laboratório que já vende o canabidiol em uma porcentagem de duzentos miligramas por mililitro que custa em média R$ 2 mil.

Paula Shaira/MidiaNews

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“O canabidiol acaba sendo, realmente, uma opção, mas quando já tentamos os métodos tradicionais”

MidiaNews – Qual o grau de melhora nos quadros das crianças a partir do uso do canabidiol?

Viviane Quixabeira – As crianças melhoram o controle de crise. Não vou dizer que existe uma melhora de 100%, mas, quando falamos de epilepesia refratária, estamos falando de crises diárias, chegando de dez a cinquenta por dia.

Vejo, na minha prática clínica, uma melhora. Aquela criança que tinha quinze crises por dia, agora passa a ter duas ou três. Para a família, já é maravilhoso. Também há famílias que relatam melhoras nas questões cognitivas e na parte comportamental. Além disso, vemos muitas mães falando que querem usar como primeira opção. Não é a nossa primeira opção. Primeiro, tentamos o que tem disponível no mercado para aquela patologia.

Além da epilepsia, existem outras patologias na neurologia que às vezes usamos também, como transtorno do desenvolvimento e alterações comportamentais como o transtorno do espectro autista. Para aquela criança que têm vários sintomas relacionados, que é agressiva, que tem várias crises sensoriais, que se bate, que faz a automutilação, às vezes usamos medicações para tentar ajudar a criança.

O canabidiol acaba sendo, realmente, uma opção, mas quando já tentamos os métodos tradicionais. Não prescrevemos como primeira opção, porque não é o correto.

MidiaNews – Acha que o receio com o canabidiol, tanto da sociedade quanto da comunidade científica, acontece mais pela questão cultural, relacionada ao preconceito ou por ausência de evidências científicas?

Viviane Quixabeira – Por ausência de evidências. Como eu estava falando do THC, surgiram alguns estudos falando que ele é epileptogênico, o que significa que é uma medicação que atua no cérebro e favorece a crise. Por exemplo, a pessoa não tem nenhuma pré-disposição a ter convulsão, mas ela usa aquela medicação à base de THC, podendo desencadear as crises. Só que isso ainda não está oficialmente notificado.

Em relação à epilepsia, as evidências científicas estão muito mais avançadas e temos muito mais liberdade para fazer laudos e solicitações. Em relação às outras patologias, como o autismo, ainda não temos evidências científicas para fazer um laudo e apresentar ao juiz, pedindo que a criança use.

MidiaNews – Percebe uma melhora efetiva nessas crianças com o uso do canabidiol?

Viviane Quixabeira – É muito variável. Nós sabemos da literatura que o canabidiol é uma medicação como outra qualquer. Tem a chance de dar certo e a de dar errado. Não é sucesso para todos. A chance do canabidiol funcionar é igual qualquer outra, tem que ser feita uma observação do caso.

Tive pacientes que ficaram super bem e outros que a família desaprovou e, por isso, pararam de usar. Não é uma coisa que as pessoas falam ‘nossa, é o salvador da pátria’, porque já tive pacientes que não funcionaram com o remédio e acabei interrompendo.

MidiaNews – Como acha que vai ser o futuro do canabidiol no Brasil? É uma medicação que tende a se consolidar ou vai continuar sendo um debate polêmico?

Viviane Quixabeira – Acho que a tendência é se consolidar, porque sabemos que temos os receptores endocanabinoides nos quais agem no sistema nervoso central. A comunidade científica tem muitos estudos em relação a isso.

Acredito que nos próximos anos, vai se consolidar como medicação e isso vai diminuir custos em longo prazo, se tornando uma opção viável. Mas como os estudos demoram, não será tão rápido assim.

MidiaNews – Quais são as dúvidas e temores dos pais cujos filhos recebem indicação de tratamento com canabidiol?

Viviane Quixabeira – O custo assusta e o acesso à medicação é bem difícil. Não é todo mundo que tem condições de bancar um tratamento acima de R$ 2 mil. Tem também toda a questão judicial, sendo que às vezes precisa de advogado. Tem uma burocracia grande. O que assusta é a forma de acesso, pelos preços e burocracias.

O segundo ponto é essa dúvida de ‘posso usar um óleo artesanal?’. Não recomendamos mais. Em algum momento, já foi usado, mas não é recomendado.

Às vezes, eles têm medo de que vicie. Acho que o principal é saber orientar que precisa de um laboratório de qualidade, de onde é extraído…

Fonte: Midianews