Bióloga alerta para barcos ao redor de onça no Pantanal: ‘Sem rota de fuga’
O vídeo que mostra dezenas de barcos reunidos para observar uma única onça-pintada em Porto Jofre levantou um alerta sobre os impactos do turismo desordenado no Pantanal. As imagens foram registradas pelo guia de turismo Redouane Lachgar, de 32 anos, na segunda-feira (13).
Após a repercussão, a bióloga Luciana Leite, representante-chefe da Environmental Justice Foundation no Brasil e cofundadora da Chalana Esperança, chamou a atenção para a proximidade das embarcações.
Segundo Luciana, o vídeo mostra o animal cercado por barcos, sem uma rota de fuga evidente. Também não é possível saber quanto tempo as embarcações permaneceram no local nem se foram respeitados limites de observação.
“Parece que os barcos estão praticamente estacionados ao redor do animal, fotografando e filmando. Isso gera preocupação do ponto de vista do bem-estar animal”, afirmou.
A bióloga explica que a movimentação pode interferir no comportamento da onça, fazendo com que ela abandone uma área de descanso, interrompa uma tentativa de caça ou desista de atravessar o rio.
“Não sabemos o que aquela onça fazia no local. Ela poderia estar caçando, descansando, tentando atravessar o rio ou voltando para os filhotes”, disse.
Luciana também cita impactos indiretos, como barulho dos motores, poluição, geração de lixo e aumento da circulação de embarcações em áreas ambientalmente sensíveis.
Veja vídeo:
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Turismo precisa ser organizado
Apesar das críticas, a bióloga ressalta que o ecoturismo é importante para a conservação do Pantanal e para a economia das comunidades da região. A atividade gera renda para guias, piloteiros, pousadas, restaurantes e outros serviços ligados à visitação. Para ela, o problema não é a presença dos turistas, mas a falta de organização e de regras claras.
“A gente está falando de um animal que é um topo de cadeia, que é um grande predador, que é um animal que, normalmente, em outros biomas tem um caráter muito elusivo, um animal que se esconde, que não gosta de ser observado. No Pantanal, ele está extremamente habituado às embarcações e o local tem a maior densidade de onças-pintadas do planeta”, explicou.
Entre as medidas defendidas estão a definição de distância mínima dos animais, limite de barcos, tempo máximo de observação, capacitação dos profissionais e reforço da fiscalização.
Luciana também defende uma presença maior do poder público nos locais mais visitados, com ações educativas e monitoramento das embarcações.
“Não estamos falando apenas de multas. A presença do Estado também educa e ajuda a organizar como o turismo é realizado”, afirmou.
A bióloga deve chegar a Porto Jofre nesta sexta-feira (17) para verificar se a concentração de barcos tem ocorrido com frequência durante a alta temporada ou se o vídeo registrou uma situação pontual.
Segundo ela, o episódio deve servir para ampliar o debate sobre como conciliar a observação de animais, a geração de renda e a preservação da fauna pantaneira. (Primeira Página)