Engenheira de VG larga carreira bem sucedida para viajar pelo mundo; vídeos
Um dia na Malásia, outro na Indonésia e, agora, na França. Essa tem sido a rotina da cuiabana Fabielle Guia, de 29 anos, desde que abriu mão de um cargo estável e disputado em uma gigante do agronegócio mato-grossense para realizar o sonho de conhecer o mundo. A produção é de Midianews. Confira:
Há 11 meses na estrada, Fabielle já passou por nove países, fez amigos pelo caminho e acumulou histórias. Longe de casa, entre aeroportos, hostels e culturas diferentes, ela encontrou o que procurava há tempos: liberdade.
Engenheira de Produção por formação, ela atuava como analista de administração comercial na Bom Futuro quando decidiu mudar os rumos de sua vida. A estabilidade financeira do cargo já não era o bastante para manter uma rotina que, para ela, havia deixado de fazer sentido.
“Era uma ótima colocação. Quando falei que iria sair, muita gente disse: ‘Você vai sair da empresa em que todo mundo quer entrar?’. Eu estava lá há quatro anos e tinha conquistado o meu espaço. Mas eu tinha sede de viajar, e trabalhar em um escritório de segunda a sexta-feira, esperando um ano inteiro para tirar um mês de férias, já não fazia mais sentido para mim”, disse.
Nascida em Cuiabá e criada no Bairro Mapim, em Várzea Grande, Fabielle teve uma infância típica de quem cresceu antes da internet.
“Eu era muito sapeca, brincava na rua, corria com os amigos, fui atropelada mais de uma vez”, contou ela aos risos.
A menina aventureira cresceu e seguiu o script imposto pela sociedade: estudar, se formar e conseguir um bom emprego. Mas, por trás das metas alcançadas, crescia nela uma inquietação.
Acordava todos os dias às 5h para encaixar a academia na rotina. Depois, enfrentava cerca de 17 quilômetros para chegar ao trabalho e, em períodos de safra, a carga horária ultrapassava o fim do expediente.
Há cerca de cinco anos, quando, em viagens curtas, conheceu mochileiros que passavam meses na estrada, ela começou a vislumbrar uma nova forma de viver, em que o trabalho não precisava ditar o seu ritmo e era apenas uma ferramenta.
Com o tempo, a curiosidade virou projeto de vida e, há dois anos, quando estudava sobre espiritualidade e propósito de vida, a ideia amadureceu. “Me dei conta de que a vida que eu estava vivendo não era a vida que eu queria viver”, disse.
“Só aproveitar a vida quando me aposentar, mas eu nem sei se vou me aposentar, a gente não sabe se vai estar vivo amanhã. Isso começou a não fazer sentido pra mim”, completou.
A decisão definitiva veio em fevereiro de 2025 e, em julho daquele mesmo ano, pediu demissão e embarcou para a África do Sul, seu primeiro destino como mochileira.
Muito além de cartões-postais
Desde que saiu do Brasil, Fabielle passou pela África do Sul, Namíbia, Tailândia, Vietnã, Malásia, Singapura, Indonésia, Japão e França onde está atualmente.
Entre todos os destinos, a Indonésia foi o que mais a marcou, segundo ela, pelas praias de aparência quase irreal, pela hospitalidade dos moradores e pelo baixo custo de vida. “Eu pagava menos de R$ 5 por uma refeição completa”, disse.
O contato diário com culturas muito diferentes da sua e a passagem por países de maioria budista e hinduísta levaram Fabielle a refletir sobre crenças, identidade e tolerância.
“Acredito em Deus e viajando tenho a convicção de que eu só acredito Nele porque eu nasci no Brasil e naquela família. Tenho a convicção de que a gente é quem a gente é, ou pensa como pensa por conta do local em que nascemos. Então, não tem sentido ter intolerância religiosa e não entender o outro”, afirmou.
Mas a vida de mochileira vai muito além das novas conexões e dos cenários paradisíacos compartilhados nas redes sociais; quem vive na estrada também enfrenta muitos perrengues.
O maior deles, para Fabielle, aconteceu ao desembarcar na Malásia, quando teve o celular furtado. “Não vi quem furtou, não foi nada agressivo, mas aquela situação me tirou um pouco do eixo”, afirmou.
O aparelho concentrava seus acessos bancários, ferramentas de trabalho e boa parte da produção de conteúdo que faz para a internet. “Isso mexeu muito comigo, mas em momento nenhum pensei em desistir e voltar pra casa”, completou.
Fabielle afirmou não ter vivido nenhuma situação extrema de medo ou violência e disse se sentir extremamente segura, especialmente em países asiáticos.
Ainda assim, para viajar sozinha, mantém uma série de protocolos de segurança, como compartilhar a localização com a família 24 horas por dia, evitar chegar a novos destinos durante a noite e nunca revelar a desconhecidos que está desacompanhada.
Dói no bolso?
Ao contrário do que muitos imaginam, segundo Fabielle, a experiência não exige uma fortuna. Em quase um ano de viagem, ela calculou ter gastado cerca de R$ 37 mil, incluindo hospedagem, alimentação, deslocamentos e passeios.
O segredo está no estilo de viagem que ela adotou, se hospedando exclusivamente em hostels e frequentemente participando de programas de voluntariado, nos quais troca algumas horas de trabalho por acomodação e alimentação.
Dependendo do país, afirmou ser possível viver com um orçamento entre R$ 2,5 mil e R$ 3 mil por mês. Já em destinos mais caros, como o Japão, os gastos mensais podem chegar a cerca de R$ 5 mil.
“As pessoas acham que é muito caro, mas, na verdade, tem infinitas possibilidades de fazer dinheiro enquanto você está viajando. Eu coloquei a maior parte dos países no meu roteiro onde o real valesse mais”, disse.
Atualmente, sua principal fonte de renda é o marketing digital, com o programa de afiliados da Shopee. Ela também vende produtos digitais e produz conteúdo sobre viagens nas redes sociais, atividade que já lhe rendeu parcerias e experiências em troca de divulgação.
“A forma como organizo a minha rotina e a quantidade de horas que trabalho por dia dependem muito do lugar onde estou. E era justamente essa liberdade que eu buscava. Hoje, tenho flexibilidade para definir o que vou fazer em cada dia”.
Próximos passos
Se no início tudo era novidade, os meses longe de casa começaram a cobrar seu preço. A saudade da família, dos amigos e das pequenas tradições brasileiras passou a se fazer mais presente.
“Eu amo viajar, é a realização de um sonho para mim. Mas, como tudo na vida, tem momentos ruins. Você se sente solitário e não tem para onde fugir. A vida de viajar não é mil maravilhas, não é felicidade o tempo todo. Bate o cansaço de ter que tomar tantas decisões importantes sozinha. Bate a solidão e a saudade”, afirmou.
Passada a euforia dos primeiros meses, Fabielle também começou a sentir o peso de uma rotina marcada por despedidas constantes. “Com o tempo, fui me cansando de fazer amizades que vão acabar em uma semana. Já não estou com tanta bateria social como no começo da minha viagem”, disse.
Por isso, a volta para casa já está nos planos. Antes, porém, ela pretende conhecer alguns países da Europa. A expectativa é retornar ao Brasil até o fim do ano para recarregar as energias, celebrar as festas ao lado da família e dos amigos e planejar os próximos passos.
Mas isso não significa encerrar a jornada. Pelo contrário. A ideia inicial de passar um ano viajando deu lugar a um objetivo maior: transformar as viagens em estilo de vida.
“Meu objetivo é ser nômade. O Brasil sempre será minha base, mas eu quero continuar viajando”, disse.
Para quem sonha seguir o mesmo caminho, ela deixa um conselho simples: planejar, mas sem esperar o momento perfeito.
“Parece um sonho distante, mas não é. A gente só precisa planejar um pouco, ter coragem e ir”, finalizou.
Veja:
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