O que deveria ser um ambiente de acolhimento humanizado e reabilitação para dependentes químicos transformou-se em um cenário de horror e violação sistemática dos direitos humanos em Luziânia (GO), Entorno do Distrito Federal. Relatos de ex-colaboradores e familiares de pacientes da Unidade Terapêutica Novo Recomeço (El Shaddai Tratamento e Recuperação Familiar Ltda) revelam uma rotina de violência que incluía tortura com choques, sedação forçada sem prescrição médica e internações involuntárias ilegais.
magens obtidas com exclusividade pelo Metrópoles mostram internos com os punhos amarrados por cordas dentro da instituição. Em um dos registros, um paciente também aparece com os tornozelos imobilizados.
Na última quarta-feira (25/3), a comunidade terapêutica foi interditada pela Superintendência de Vigilância Sanitária (Suvisa), em uma ação integrada com outros órgãos. A gravidade da situação provocou a demissão em massa de funcionários.
Embora a instituição dispusesse de alvará de funcionamento válido à época da fiscalização, as irregularidades constatadas motivaram a suspensão do alvará, bem como a interdição cautelar do estabelecimento, até a conclusão do devido processo legal e a plena regularização das não conformidades apontadas.
Em 2023, a unidade terapêutica de Geralda também passou a acolher internos provenientes da Clínica Restituindo Vidas, administrada por seu filho, Tiago de Morais Araújo, após o fechamento da instituição em decorrência de denúncias de mortes e práticas de tortura.
O “resgate”
De acordo com os depoimentos, a violência tinha início ainda antes da chegada à clínica. Durante o processo de remoção — que deveria garantir um transporte seguro, especializado e humanizado a clínicas ou hospitais —, pacientes submetidos à internação involuntária já eram alvo de agressões.
Segundo os profissionais que passaram pela instituição, a dificuldade de adaptação dos pacientes é imediata, devido ao trauma causado pela forma como são capturados e mantidos.
Uma das denúncias mais graves envolve o uso de medicação controlada sem qualquer supervisão médica. Sebastião é acusado de aplicar indutores de sono e sedativos considerados “pesados”.
“Teve gente que convulsionou com remédio que ele [Sebastião] mandou ministrar. Medicamento clandestino… ele mesmo aplicava para dopar os pacientes”, relata um ex-funcionário.
Condições insalubres
Dentro da clínica, os pacientes viviam em condições descritas como degradantes. De acordo com a lista de acolhidos referente a março deste ano, o local abrigava 51 pessoas.
“Não tem gestão, não tem padrão terapêutico. É muito mais fácil só trancar a pessoa e não dar tratamento”, afirma um ex-colaborador.
Segundo as denúncias, a unidade terapêutica também não conta com profissionais capacitados para lidar com crises de abstinência ou surtos, resultando em pacientes sem qualquer evolução no quadro de saúde.
Trauma de famílias
Um dos relatos vem da familiar de um ex-interno que permaneceu cinco meses sob a custódia da comunidade terapêutica. O paciente foi retirado pelos parentes da unidade nesta semana, após a interdição da clínica.
“Certa vez, deram murros no peito dele, ele disse que começou a sentir falta de ar. Diziam para a gente que era abstinência. Também vi por videochamada o pescoço dele rasgado; disseram que era ‘procedimento’, porque ele resistiu”, relata a familiar que preferiu não se identificar.
“A gente fica muito triste. Já chorei muito. Não sabemos o que é pior: deixar a pessoa morrer na rua ou mandá-la para a clínica e ela sair completamente diferente”, desabafa.
Na última visita feita ao parente, ela disse que o homem não conseguia nem falar direito de tão sedado que estava.
“Ele está em casa agora, mas está muito estranho. Só quer dormir ou fica andando de um lado para o outro. Ele era normal, só tinha o vício. Agora parece uma pessoa com problema mental grave”, acusa.
Alvo do MPGO
O Ministério Público de Goiás (MPGO), por meio da 6ª Promotoria de Justiça de Luziânia, ajuizou, no início de 2026, uma ação civil pública com o objetivo de interditar a Unidade Terapêutica Novo Recomeço (El Shaddai Tratamento e Recuperação Familiar Ltda).
Diante das constatações, o MPGO requereu na ação, em caráter liminar, a interdição cautelar definitiva da unidade, com vedação de reabertura sob outro nome, CNPJ ou endereço até regularização completa.
Por fim, o órgão solicitou também que Geralda fosse proibida de exercer atividades relacionadas ao tratamento de pessoas com transtornos mentais e assistência social envolvendo idosos, pessoas com deficiência, crianças e adolescentes.
Em fevereiro deste ano, o juiz responsável pelo caso entendeu que a desativação imediata da unidade, sem um plano estruturado de acolhimento, poderia agravar a situação dos pacientes, considerados pessoas em condição de vulnerabilidade.
Diante disso, a Justiça de Goiás determinou que as secretarias municipais de Saúde e de Assistência Social realizassem uma avaliação detalhada de cada interno. Até a atualização mais recente da ação civil, os réus haviam sido citados e intimados.
O que diz a clínica
Procurado pela reportagem, o jurídico da Unidade Terapêutica Novo Recomeço não se manifestou até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto. (Metrópoles)





