Os riscos que crianças e adolescentes enfrentam nos ambientes digitais voltaram ao centro do debate público nas últimas semanas com o vídeo do influenciador Felipe Brassanim Pereira, conhecido como Felca. O vídeo, que viralizou nas redes sociais, trouxe à tona discussões relevantes sobre segurança online e “adultização”.
A discussão mobilizou até a Câmara dos Deputados, que aprovou em regime de urgência na terça-feira (19) um projeto que busca proteger crianças e adolescentes no ambiente online.
A “adultização” acontece quando menores de idade são submetidos a situações, comportamentos ou responsabilidades que forçam a aceleração do desenvolvimento infantil. Isso traz consequências psicológicas e pode levar a uma sexualização excessiva, principalmente de meninas.
Com as redes sociais, esse fenômeno ganhou novas dimensões. No vídeo divulgado por Felca, ele aborda o “algoritmo P”, mostrando como redes sociais como TikTok e Instagram impulsionam conteúdos sobre “adultização” e exploração sexual infantil para usuários específicos.
Na internet, abusadores sexuais usam fóruns, redes sociais e jogos como o Roblox para entrar em contato com crianças e adolescentes, buscando manipulá-los, obter informações pessoais ou conseguir fotos e vídeos.
Com desse cenário, pais ficam temerosos sobre como proteger seus filhos nas redes sociais. A proteção contra perigos online e violência sexual deve ser multifacetada e proativa, envolvendo conscientização, diálogo aberto e confiança.
APLICATIVOS DE MONITORAMENTO
A adoção de aplicativos e softwares de controle parental tem se tornado um auxílio adicional para os pais. Essas ferramentas monitoram e gerenciam o que os filhos fazem no celular, seja replicando o conteúdo para outro aparelho, bloqueando aplicativos ou restringindo o acesso a determinados conteúdos.
Esses aplicativos devem ser combinados com diálogo sobre responsabilidade, privacidade e uso consciente da tecnologia.
PRINCIPAIS APLICATIVOS DO MERCADO:
– Android Parental Control
– Family Link
– FlashGet Kids
– Kidslox
– Qustodio
Além dos aplicativos, existem configurações específicas nas redes sociais para aumentar a segurança: manter contas privadas, controlar mensagens diretas, filtrar comentários ofensivos e bloquear contas suspeitas.
Essas ferramentas permitem que os pais controlem o tempo de tela dos filhos, ou no próprio aparelho telefônico (painel de atividade para monitorar o tempo de uso, ativar lembretes diários e silenciar notificações push). É uma forma de construir também um diálogo sobre a quantidade apropriada de tempo para estar nas plataformas digitais por dia ou semana.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tempo de tela deve ser limitado: crianças de 2 a 5 anos devem ter o tempo de tela limitado a uma hora por dia, e crianças de 5 a 13 anos devem ter no máximo duas horas de tempo de tela recreativo por dia. A ONG Childhood ainda reforça que acrianças e adolescentes entre 11 e 18 anos devem usar duas a três horas por dia e nunca passar a noite inteira jogando.
Pais não precisam ser especialistas em tecnologia, mas devem estar abertos a escutar e acompanhar. Assim, o diálogo e a confiança são as melhores ferramentas para a segurança, segundo a psiquiatra da infância e adolescência Danielle Admoni, supervisora na residência de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
O PAPEL DOS PAIS NAS REDES SOCIAIS
Para além do monitoramento, existe também o papel direto dos adultos nas plataformas digitais, que podem contribuir para a vulnerabilização das crianças e adolescentes. Fotos ou vídeos inocentes postados pelos pais podem servir de material para pessoas mal-intencionadas, uma vez que podem ser modificados para pornografia infantil.
Existe uma expressão para esse ato: sharenting (termo que mistura duas palavras em inglês: share, de compartilhar, e parenting, de cuidar de uma criança). Reconhecido pelo dicionário Oxford em 2023, o conceito aborda questões de privacidade e proteção da imagem infantil, já que essas postagens podem conter informações pessoais, como escola, onde mora, quem são os amigos.
O QUE OBSERVAR NO COMPORTAMENTO DOS FILHOS
Do ponto de vista dos pais, também é essencial ficar de olho no que a criança faz quando está conectada. Alguns pontos a observar, segundo a Childhood, são:
– O conteúdo é adequado para a idade?
– Se tem perfis nas redes sociais (ainda que elas não sejam feitas para menores de idade), como são essas redes?
– Há interação com pessoas desconhecidas?
– Está afetando a privacidade ou oferecendo dados pessoais?
– Está gerando imagens inadequadas próprias ou de amigos e compartilhando?
– Está com mudança de comportamento?
– Está deixando de fazer outras atividades essenciais, como interagir com a família ou brincar ao ar livre?
OS CÓDIGOS DOS PEDÓFILOS
Os pais precisam se atentar à interação com pessoas desconhecidas, o que significa monitorar os comentários dos conteúdos publicados pelos filhos ou que contenham as crianças e adolescentes.
Pedófilos usam códigos que vão desde emojis com conotação sexual até GIFs escritos “link na bio”, para direcionar a canais do Telegram que distribuem e vendem vídeos de abusos contra crianças e adolescentes, além de acrônimos e siglas. Uma das mais utilizadas são as letras “c” e “p”, iniciais de “child pornography” (pornografia infantil). Também tem a frase “Errei, fui Raulzito”, em referência a um influenciador preso por pedofilia
Especialistas alertam, no entanto, que esses códigos podem mudar com o passar do tempo.
Ao se deparar com esses comentários, o que fazer? Além das ações citadas ao longo do texto, a Childhood sugere salvar as possíveis provas, reportar na rede social ou site, denunciar em denuncie.org.br, procurar autoridades com as provas reunidas.
CANAIS DE DENÚNCIA E APOIO
Além disso, existem canais de denúncia e apoio imediato: Disque 100, Ligue 180 (para mulheres) e Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA).
Sites para prevenção de riscos na internet:
– SaferNet Brasil (www.canaldeajuda.org.br)
– Cartilha “Navegar com Segurança” (Childhood Brasil)
– “Guia para Pais do Instagram” (SaferNet) (Folhapress/Diário de Cuiabá)