Mato Grosso vive uma explosão carcerária que já ultrapassa a capacidade do sistema e expõe um cenário de descontrole estrutural. Em apenas dez anos, o número de presos saltou cerca de 66%, mais que o dobro do crescimento nacional, enquanto a expansão de vagas não acompanhou o ritmo, criando um gargalo que hoje empurra presídios para níveis extremos de superlotação.
Os dados são contundentes: o Estado saiu de aproximadamente 9,6 mil presos em 2016 para mais de 15,2 mil em 2026, com registros que já apontam 16 mil detentos apenas no regime fechado.
No mesmo período, o Brasil cresceu cerca de 29%, evidenciando que Mato Grosso avança em velocidade muito superior ao restante do país. E o crescimento não desacelerou — pelo contrário.
Entre 2024 e 2026, o sistema ganhou cerca de 2,3 mil novos presos, um salto de 17,5% em curto intervalo, índice que praticamente triplica a média histórica.
O dado indica um endurecimento das políticas de segurança e aumento de prisões, mas sem qualquer correspondência estrutural para absorver esse contingente.
Hoje, o Estado dispõe de cerca de 12.947 vagas para aproximadamente 16 mil presos, resultando em uma taxa média de ocupação de 126%.
Embora inferior à média nacional (150,3%), o número mascara uma realidade muito mais grave: a superlotação está concentrada em unidades específicas, onde o sistema já opera em nível crítico.Levantamento revela presídios em colapso operacional, com índices alarmantes de ocupação:
• Barra do Garças: 167% acima da capacidade
• Primavera do Leste: 118% acima
• Colniza: 84% acima
• Pontes e Lacerda: 77% acima
• Paranatinga: 68% acima
• Campo Novo dos Parecis: 65% acima
• Jaciara: 63% acima
• Peixoto de Azevedo: 51% acima
Na prática, isso significa celas superlotadas, infraestrutura sobrecarregada e um ambiente propício a crises, rebeliões e colapso administrativo. O problema não é apenas numérico — é estrutural.
Mesmo com um Termo de Ajustamento de Conduta firmado com o Judiciário, que previa a ampliação do sistema, o Estado criou 4.894 vagas, entre 2020 e 2024, mas ainda acumula 4.656 vagas pendentes, além de 864 em construção. Ou seja, o déficit segue aberto e longe de ser resolvido.
A rede prisional, composta por ao menos 18 unidades espalhadas pelo Estado, incluindo cadeias públicas, centros de detenção provisória e presídios regionais , já não consegue distribuir de forma equilibrada a população carcerária.
O resultado é a concentração de presos em determinadas regiões, transformando unidades específicas em verdadeiros pontos de pressão. Outro fator que agrava o cenário é a reincidência.
Cerca de 41% dos detentos voltam a cometer crimes em até cinco anos, mantendo o fluxo de entrada elevado e impedindo qualquer redução consistente da população prisional.
A lógica é simples: o sistema prende mais do que consegue reintegrar. E o problema vai além dos muros das penitenciárias.
Quando se incluem presos em regime semiaberto, aberto e monitorados por tornozeleira eletrônica, o número de pessoas sob custódia do Estado pode chegar a 20 mil a 23 mil, ampliando ainda mais a pressão sobre a estrutura de segurança pública.
O diagnóstico é direto: Mato Grosso vive um modelo de encarceramento acelerado, com crescimento explosivo, estrutura insuficiente e baixa capacidade de reintegração social.
O resultado é um sistema que opera no limite — e, em alguns casos, já além dele. (Diário de Cuiabá)





