Quatro PMs são investigados por milícia e pelo menos 7 execuções em supostos confrontos

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Com a decisão, a suposta milícia deve ser investigada pela Corregedoria da PM – Foto: Reprodução

Quatro policiais militares estão na mira de uma investigação determinada pela 11ª Vara Criminal de Cuiabá Especializada da Justiça Militar por suposto envolvimento em pelo menos sete execuções, formação de milícia privada e ocultação de cadáver, no município de Primavera do Leste (MT). A suspeita é de abordagens violentas e versões oficiais de confronto para encobrir possíveis homicídios.

A investigação partiu de um pedido formulado pelo promotor de Justiça Henrique de Carvalho Pugliesi, após denúncias registradas na Ouvidoria-Geral do Ministério Público Estadual (MPE). São apontados como suspeitos dois coronéis, um cabo e um soldado.

No documento enviado à Justiça Militar, o MPE aponta indícios de crimes graves, como homicídios consumados e tentados, ocultação de cadáver, coação, abuso de autoridade e até a formação de uma milícia privada dentro da corporação.

O caso foi encaminhado na última sexta-feira (13) pelo juiz José Mauro Nagib Jorge à Corregedoria-Geral da PM para que seja aberto um Inquérito Policial Militar (IPM), que terá prazo inicial de 40 dias para apresentar os primeiros resultados da apuração, que deve verificar se há consistência nas denúncias e esclarecer a dinâmica das mortes investigadas.

Conforme o Ministério Público, os relatos apontam para abordagens feitas sem seguir protocolos, uso excessivo da força e, depois, a versão de que houve “troca de tiros”. Em alguns casos, há suspeita de que armas tenham sido plantadas nas cenas dos crimes para validar uma narrativa de confronto.

O que diz a denúncia

Um dos episódios ocorreu em 24 de novembro de 2025, na região do Vale Verde, em Primavera do Leste. A denúncia narra que uma equipe da PM foi até uma casa onde estavam quatro pessoas e teria feito a abordagem já com disparos de arma de fogo, mesmo sem reação armada dos suspeitos. Na ocasião, dois homens foram baleados.

Ainda segundo o relato, quando moradores se aproximaram, os policiais colocaram os feridos na viatura dizendo que os levariam para atendimento médico. Porém, há indícios de que o grupo seguiu para uma área próxima a um rio, onde um dos jovens foi morto e o outro ficou gravemente ferido após novos tiros. O jovem que sobreviveu aos disparos é apontado pelo MPE como uma das possíveis testemunhas para relatar os acontecimentos.

Narrativa de confronto

O documento também menciona a morte de Riquelme Gomes Pereira, de 18 anos, em um suposto confronto com forças policiais em dezembro de 2024, e de Matheus Fernandes Souza, de 25 anos, morto em março do ano passado. Em ambos os casos, os militares registraram as ocorrências como resultantes de confrontos armados.

Por outro lado, o MP aponta a existência de um padrão de conduta por parte dos militares envolvidos, que teriam registrado, em documentos oficiais, execuções como se fossem mortes decorrentes de confrontos. Ainda segundo o promotor, em todos os episódios mencionados há relatos de que as vítimas estariam desarmadas.

Morte e ocultação de cadáver

Outro fato sob suspeita aconteceu em 24 de janeiro de 2026, também no Vale Verde. Policiais teriam entrado na casa de uma profissional de saúde, que estava acompanhada de outros três jovens. Na ocasião, os três jovens e a profissional de saúde acabaram mortos.

A denúncia aponta ainda que o corpo da profissional tenha sido retirado do local, sendo o fato posteriormente registrado, em documentos oficiais, como desaparecimento. O MPE afirma que esse caso pode ser considerado, em tese, como um crime de ocultação de cadáver e supressão de vestígios.

Ministério Público ainda relaciona outras mortes ocorridas no município que teriam o mesmo padrão, incluindo a de um jovem de 18 anos e outro homem de 25 anos. Também é citado o caso de um homem de 45 anos, morto dentro de casa, com relatos de invasão e intimidação de vizinhos para impedir a entrega de imagens de segurança do local.

Entre as medidas solicitadas pelo MP estão ouvir o sobrevivente, interrogar os policiais envolvidos, identificar testemunhas e buscar imagens de câmeras de segurança.

A Polícia Militar foi procurada nessa quinta-feira (19), mas até esta sexta-feira (20), quando a reportagem foi publicada, não havia se manifestado sobre o caso. (Primeira Página)