Médico prevê até 800 voluntários em teste de vacina em MT

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O infectologista do Hospital Júlio Müler, Cor Jesus Fernandes Fontes, é o investigador principal em Mato Grosso dos testes da Coronavac, a vacina desenvolvida pelo laboratório chines Sinovac Life Science e que está em sua fase 3 de experimento.

É ele quem estará à frente da pesquisa, que pretende abranger entre 500 e 800 profissionais da área da saúde em Cuiabá e Várzea Grande.

É na fase 2 que os pesquisadores avaliam a efiácia e comprovam a segurança do imunizante.

O médico se diz otimista com a possibilidade de a vacina ser aprovada. “Se eu não fosse, não estaria nessa. E tenho esse otimismo porque todas as vacinas que têm semelhança com essa, ou seja, vacina produzida com vírus inteiro inativado, todas desse estilo resultaram em alta eficácia”, afirmou.

Na entrevista concedida ao MidiaNews nesta semana, Cor Jesus explicou por que apenas profissionais dá saúde participam do teste, a razão de o imunizante precisar de duas doses e criticou o movimento antivacinal. “A vacina veio para mudar a história de saúde do Mundo. Acredito que a hora em que chegar a vacina para a Covid-19 muitos desses dos movimentos antivacina estarão na fila”, diz.

No Brasil, a coordenação do teste é do Instituto Butantan, ligado ao Governo do Estado, que deverá produzir o imunizante caso seja aprovado.

Leia abaixo a entrevista:

MidiaNews – Quando começa a pesquisa com a vacina em Mato Grosso?

Cor Jesus Fernandes Fontes – Um projeto ensaios de eficácia e segurança de uma vacina exige uma inclusão de um pequeno número de participantes para verificar se o centro que vai participar desse processo de vacinação está preparado para receber os voluntários e executar todos os processos que são necessários para garantir a melhor qualidade dos trabalhos.

Na quarta-feira (7) nós fomos autorizados a começar o nosso trabalho incluindo apenas 10 voluntários. Nós ficamos das 15h a 21h e incluimos os 10 voluntários passando por todos os procedimentos éticos e técnicos da vacinação. Na quinta-feira (8) a equipe de São Paulo do Instituto Butantan estava avaliando os nossos trabalhos para decidir pela qualidade ou não para nos autorizar a reiniciar o processo de vacinação, incluindo os demais voluntários que participarão aqui em Cuiabá e Várzea Grande. A gente espera vacinar de 500 a 800 participantes. E os testes só poderão ser feitos até novembro.

MidiaNews – Qual será o perfil dos voluntários?

Cor Jesus Fernandes Fontes  O Instituto Butantan, nesta primeira fase, optou por trabalhar com pessoas que estejam muito expostas ao vírus, ou seja, os profissionais de saúde que estejam na linha de frente da atenção ao paciente com Covid-19. Portanto, o perfil do voluntário tem que ser primeiro um profissional de saúde. Segundo, é preciso comporvar que está na linha de frente no combate ao vírus.

Houve esta restrição porque a Anvisa só autoriza a participação voluntário de profissionais que tenham conselho de classe, e aqui no Brasil o único profissional de nível médio que tem conselho de classe é o técnico de enfermagem, que participa do Conselho Regional de Enfermagem. Então outros técnicos não poderão por essa razão. Já os de nível superior todos têm conselho de classe, então o maior critério é estar envolvido em alguma atividade de assistência com o paciente com Covid-19.

A idade é livre superior a 18 anos. A pessoa não pode ter doença grave, apenas doenças crônicas controladas. No caso de voluntárias mulheres, elas não pdoem estar grávidas, não podem estar amamentando e no geral os voluntários não podem ter tido febre nas últimas 72 horas, porque neste caso para qualquer vacina é uma contraindicação.

MidiaNews – Este é um estudo triplo cego. O senhor pode explicar como funciona um estudo triplo cego? Qual a porcentagem de vacina e de placebo nos testes desta vacina?

Cor Jesus Fernandes Fontes  Esses estudos comparativos de vacina e de novos medicametos sofrem enterferência de vários sujeitos que são envolvidos na pesquisa. O primeiro deles é o próprio voluntário da pesquisa, porque se ele sabe a qual grupo ele pertence… A gente vai fazer um grupo comparativo, 50% dos voluntários vão tomar a vacina e os outros 50% vão tomar o placebo. Só que isso será um sorteio. Nem o participante, nem os inestigadores e nem os patrocinadores, que neste caso é o Instituto Butantan, sabem quem tomou o quê.

A gente só vai descobrir ao final do tempo de acompanhamento previsto, que é de um ano. Isso significa triplo cego, porque nem o voluntário, nem o investigador e nem o patrocinador sabem a qual grupo pertence o participante.

MidiaNews – Milhares de pessoas já receberam a dose da vacina em todo o Brasil sem nenhum efeito adverso. Isso facilita o recrutamento de voluntários em Mato Grosso?

Cor Jesus – A primeira coisa que eu pensei na hora de aceitar o convite foi exatamente isso. Eu entrei mais atrasado no processo e já fiquei mais tranquilo com essa informação, porque no Sul e no Sudeste foram mais de 7 mil pessoas vacinadas e nós não tivemos nenhum evento adverso grave. Eventos pequenos como dor no braço, coceira, dor de cabeça, diarréia, isso é aceitável. Mas como não houve nada grave, isso me deu muita segurança em aceitar ser o responsável em Cuiabá. E é claro que isso também ajuda muito no recrutamento, porque as pessoas também estão se sentindo seguras com esse relatos sobre não haver efeitos graves.

MidiaNews – Por que são necessárias duas doses? Não poderia ser uma apenas com o dobro da potência?

Cor Jesus Fernandes Fontes  As vacinas e os medicamentos passam por uma fase anterior a essa que nós estamos, em que os produtores testam a melhor dose. Isso é baseado na produção de anticorpos. No caso da vacina, e isso foi testado na China e em São Paulo, eles verificaram que se houver uma segunda dose entre 15 e 21 dias, a resposta dos anticorpos é mais intensas, por isso foi proposto fazer em duas doses.

Tem vacina que com uma dose você consegue esse nível bom de anticorpos, porém no caso desta o melhor ocorreu com duas doses. Isso para tratar em um ano. Então após passar esse tempo nós vamos ver se haverá necessidade de reforço.

MidiaNews – O senhor está otimista em relação a uma vacina contra a Covid, independente de qual fique pronta primeiro?

Cor Jesus Fernandes Fontes  Se eu não fosse, não estaria nessa. E eu tenho esse otimismo porque todas as vacinas que têm semelhança com essa, ou seja, vacina produzida com vírus inteiro inativado, todas desse estilo resultaram em alta eficácia. Exemplos são as de sarampo, febre amarela e a própria vacina da gripe. Então o formato dessa vacina é muito promissor. E como ela já se mostrou segura, estou muito otimista que a gente vai ter um resultado satisfatório.

MidiaNews – Acha que em quanto tempo uma vacina estará disponível no mercado?

Cor Jesus Fernandes Fontes  Vamos pensar otimisticamente, pensando que dentro de um ano a gente comprove que esta vacina é eficaz e segura. Após isso nós temos que produzir para um País de mais de 200 milhões de pessoas. E para isso precisamos de uma estrutura, neste caso o Brasil tem uma capacidade de altas doses de vacina, como o Instituto Butantan e o Bio-Manguinhos, que pertence a Fiocruz no Rio de Janeiro, que produzem em larga escala.

O próprio Instituto Butantan já vai dar conta de produzir para equipar o Brasil com a vacina em um tempo rápido. Acredito que dentro de um ano eles terão condições de estocar a quantidade necessária.

MidiaNews – Acha que os prazos estão sendo devidamente respeitados. Porque muitos dizem que uma vacina demora anos para ser desenvolvida? E este não será o caso da vacina contra a Covid.

Cor Jesus Fernandes Fontes  O Mundo atual já tem tecnologia suficiente para produzir uma vacina mais rapidamente, e, junto com isso, surgiram dois grandes interesses, sendo eles o sanitário e o econômico. A Covid-19 gerou um estresse mundial, por causa da letalidade e da gravidade, além do impacto econômico que ocorreu.

Do lado político, facilitou porque teve um interesse grande em que toda a sociedade envolvida com a saúde, intelectuais, científica e a indústria, que se mobilizaram para enfrentar. Pela outra perspectiva, tem o grande interesse financeiro das indústrias de vacina, porque é um medicamento que vai ser vendido para o Mundo inteiro. Então se tem dois lados importantes interessados pelo surgimento da vacina, os diversos potenciais no Mundo aparecem mais rapidamente porque eles têm tecnologia.

Até no Brasil nós descobrimos com a Covid-19 que o País tem condições de produzir vacinas rapidamente, de produzir testes e kits de diagnósticos, além de termos as condições para testar também. O que ocorreu com essa doença, que não acontece com as demais, é que houve o interesse que somou na mesma direção e fez com que viessem à tona as nossas potencialidades. E dessa forma vão saindo vacinas uma atrás da outra, várias delas já sendo testadas.

Foi uma mobilização mundial e uma capacidade já existente, que estava acumulada, mas inibida porque não tinha mobilização de recursos. Isso é ótimo, este é um legado que esta doença horrorosa vai deixar para nós, pois ela fez ressurgir as nossas potencialidades e isso vai ficar. Então, apesar das coisas ruins, també ficaram algumas coisas boas.

MidiaNews – Aqui serão realizados testes apenas com a vacina da Sinovac?

Cor Jesus Fernandes Fontes  Esta vacina começou primeiro, mas eu já recebi algumas informações preliminares sobre uma segunda vacina produzida por uma indústria farmacêutica que vai ser iniciada em brave em Cuiabá, porém, não sei mais detalhes porque nada passou por mim e nada está sendo divulgado.

Essa segunda vacina vai ser produzida pela Johnson & Johnson, por meio do laboratório Janssen. Só sei disso porque já chegaram comunicados para colegas que estão envolvidos com essa vacina, mas a organização de hospitais são de outras instituições, não é do Julio Muller.

MidiaNews – Não teme que haja críticas e resistência por parte de críticos da China, principalmente daqueles que dizem que o vírus foi criado em laboratório?

Cor Jesus Fernandes Fontes  Eu não acredito em teoria da conspiração e em terrorismo. Acho que a história da biologia, da evolução da vida explica muito bem sobre outros vírus e outros parasitas que antes só causavam doenças em animais e vieram para o homem.

Essa é mais uma situação semelhante de um vírus que é adaptado em animal, que sofreu mutação e passou a infectar os homens. Isso não passa pelo terrorismo e pela teoria da conspiração.

MidiaNews – Essa vacina é feita a partir do vírus inativado. O senhor pode dar mais detalhes dela?

Cor Jesus Fernandes Fontes  Essa é uma vacina das mais tradicionais. Desde as primeiras vacinas no século XIX, a vacina é feita com o próprio patógeno que causa a doença. No caso dessa vacina, assim como foi no caso da varíola, é utilizado esse formato, porém o causador do vírus não pode entrar como ser vivo natural, se não ele causa a doença, por isso ele passa pelo processo de inativação, exposto à calor, à radiação, para deixá-lo dessa forma.

Ele não é destruído, mas não consegue produzir todas as suas consequências no organismo, mas ele consegue replicar. Então você inocula uma pequena quantidade do vírus e ele replica no organismo para produzir a resposta imunológica. Ele não produz a doença, mas produz a resistência.

Então ele é um vírus inativado acoplado à uma molécula de hidróxido de alumínio, que serve para ajudar o organismo a montar uma resposta imunológica de anticorpos contra este vírus inativado. Este é o desenho mais simples desde a história do desenvolvimento inicial da vacina

MidiaNews – Como médico, como o senhor enxerga o movimento antivacinal?

Cor Jesus Fernandes Fontes  A história da vida das pessoas no planeta Terra passa por diferentes fases que, no mundo atual, podemos dizer qe fomos coroados com um âxito em cima da nossa qualidade e quantidade de vida. A expectativa de vida no início do século XX era de 40 a 50 anos, hoje em vários países está acima de 80 anos, e isso foi o resultado de uma mudança do status de saúde dessas pessoas no decorrer dos séculos.

Até metade do século XX, as doenças que matavam eram aquelas infecciosas, que faziam a nossa expectativa de vida ser baixa. E com o surgimento da vacina, que no mesmo século veio para se estabelecer como uma medida protetiva, nós invertemos e fizemos uma transição disso, em que as doenças infecciosas deixaram de ser a causa da morte e passaram a ser as doenças crônicas do idoso.

A vacina veio para mudar a história de saúde do Mundo. Então falar em movimento antivacina, para mim, está no mundo da ignorância e do obscurantismo. Existem tantas evidências dos benefícios da vacina que não dá para existir uma discussão sobre antivacina. Agora, se a pessoa chega falando sobre os efeitos colaterais, tudo pode causar isso, o medicamento, assim como o automóvel pode me matar, mas dá muitos benefícios.

Acredito que a hora em que chegar a vacina para a Covid-19 muitos desses dos movimentos antivacina estarão na fila para receber suas doses.

Fonte: Midianews