
Responsável por monitorar uma faixa de terra de 980 km de extensão, entre trechos secos e aquáticos, o Gefron (Grupo Especial de Fronteira) prende diariamente diversas pessoas e apreende quantidades expressivas de drogas. Para o tenente-coronel Airton Araújo, as grandes apreensões nem sempre resultam em punições proporcionais, cenário que, segundo ele, explica por que “o marginal só tem medo da Polícia”.
Em entrevista ao MidiaNews, o subcomandante do Gefron afirmou que o maior entrave no combate ao crime não está na rua, mas na legislação. Para ele, o criminoso já não teme as consequências judiciais.
“Ele sabe que vai sair na custódia porque é réu primário ou sabe que aquele crime dá a ele uma condição de pagar a fiança, claro que, principalmente nos crimes de descaminho, de contrabando. Não estamos falando de tráfico. Mas é o que eu digo: ao mesmo tempo que a lei dá a interpretação para soltar, também dá a interpretação para deixar preso”, disse.
“Enquanto a Polícia, hoje, se vê acuada pela Justiça. Porque, cada dia mais, os órgãos fiscalizadores voltam seus olhares para a Polícia. Então, cada dia mais, trabalhamos com mais técnica, cada vez mais nos dedicamos e, às vezes, acontece isso. Muitas das vezes, os criminosos são presos e soltos, o que é desanimador para o policial”, acrescentou.
Como demonstração do trabalho do Gefron, Araújo revelou que, em 2025, o grupo apreendeu cerca de 22 toneladas de drogas e recuperou mais de 200 veículos roubados. Já no início de 2026, quase 3 toneladas de entorpecentes haviam sido retiradas de circulação.
Ao analisar o problema da reincidência, o tenente-coronel afirmou que o Executivo também tem parcela de responsabilidade ao deixar de adotar, em alguns casos, procedimentos que considera necessários.
Ainda assim, avaliou que a própria legislação, ao pé da letra, abre margem excessiva para que criminosos não permaneçam presos. Para ele, a amplitude nas decisões e a falta de endurecimento das normas contribuem para a sensação de impunidade e reforçam a necessidade de revisão legislativa e penas mais rígidas.
Confira os principais trechos da entrevista (e o vídeo com a íntegra ao final da matéria):
MidiaNews – Quais foram as principais apreensões realizadas pelo Gefron no último ano e neste começo de 2026?
Airton Araújo – Temos um balanço muito positivo do ano de 2025. São aproximadamente 22 toneladas de entorpecentes apreendidos. A grande maioria é resultado de grandes trabalhos de integração com outras forças, com a Polícia Militar, com a própria Polícia Civil, com a Polícia Federal, inclusive de outros estados.
Temos um saldo bem relevante. Muitos veículos também foram recuperados naquela região de fronteira. Mais de 200 veículos, outrora roubados pelo Brasil inteiro, foram recuperados antes de atravessar para o país vizinho e entrar na Bolívia. O Gefron conseguiu fazer essa captura, recuperar esses veículos. Então, 2025 foi bastante produtivo.
Entramos em 2026 e no mês de janeiro já temos quase 3 toneladas apreendidas. São números bastante expressivos. E a dedicação é constante, não para. Não paramos um só minuto em prol de atingir esse objetivo.
MidiaNews – As operações do Gefron têm apresentado um aumento ou uma mudança de perfil nesses últimos meses. Outras drogas estão sendo apreendidas, mais veículos, mais prisões?
Airton Araújo – O crime é muito dinâmico. Ele estuda. A gente acha que não, mas o crime é muito dinâmico. O Governo do Estado teve um investimento muito grande no Vigia Mais MT, um programa que foi assertivo. Nos ajudou muito e tem nos ajudado bastante no reconhecimento de novas rotas, na própria identificação de veículos que participam do tráfico no modal rodoviário.
Então, isso tudo contribuiu muito para a manutenção e até o aumento das apreensões no tráfico internacional, principalmente nesse modal rodoviário. Esses foram alguns investimentos que foram bons. Outros dados, outros resultados, vamos falar de forma empírica. A ação dos americanos com relação à Venezuela, a gente entende que houve uma migração do tráfico, que vai atingir o Brasil de uma outra forma.
Esse tráfico foi desviado. Então, a gente sabe que o Amazonas está circulando mais entorpecente, o Pará, Rondônia e Mato Grosso. Mas é claro que estamos em fase de estudo, a Secretaria também estuda sobre isso. Temos alguns órgãos que estão debruçando sobre tudo isso que está acontecendo.
MidiaNews – Da Venezuela, quais seriam os entorpecentes que viriam para cá? Maconha?
Airton Araújo – O Peru é um grande produtor do cloridrato, da pasta base de cocaína. Assim como a Colômbia. E a Venezuela, pela proximidade com a América do Norte, grande parte do tráfico no modal aéreo passa por lá, pelo espaço aéreo venezuelano, ou ele carrega lá e desloca para outros países, como Estados Unidos.

A ação dos Estados Unidos lá, com certeza, trouxe um freio nesse tráfico. Não estou dizendo que acabou ou deixou de existir, mas, com certeza, houve uma diminuição. E a gente sabe que tinha também o tráfico no modal hidro, pelo mar. Então, a gente sabe que houve um rearranjo do tráfico.
O Brasil pode fazer parte [da rota do tráfico da Venezuela], e a droga pode encaminhar um pouco mais para o nosso lado. Então, a cada dia, nós temos que nos reforçar e nos dedicar mais para que as apreensões sejam cada vez melhores.
MidiaNews – A fronteira de Mato Grosso com a Bolívia continua sendo um ponto sensível para o tráfico. Quais são os maiores desafios operacionais que vocês têm enfrentado diariamente?
Airton Araújo – A fronteira da Bolívia, que se estende aqui no espaço de Mato Grosso, é um ponto sensível para a nossa nação, para o Brasil. Não é só para os mato-grossenses. Até porque Mato Grosso hoje está em uma das principais rotas do tráfico, onde a cocaína entra pelo Mato Grosso, mas a maioria dessa cocaína não permanece em Mato Grosso.
Ela parte para os grandes centros, parte em região ao sul, ao sudeste, ou mesmo ao nordeste, que é para alcançar a Europa, alcançar países da América do Norte. Então, essa rota é uma rota de passagem. Então, o Gefron, é o primeiro enfrentamento, ou o último enfrentamento, como queira enxergar. É mão pesada do estado com relação ao crime de tráfico de entorpecentes. E uma das dificuldades que temos é que o Governo Federal poderia apoiar-nos de uma melhor maneira. Eu entendo que a União precisa, sobretudo, olhar melhor para a região de fronteira
MidiaNews – O senhor se refere a mais investimentos?
Airton Araújo – Claro. O Governo do Estado hoje mantém o grupamento especial de fronteira e muitos investimentos foram feitos no estado, o programa Vigia Mais MT, com quase 20 mil câmeras instaladas em todo o estado. Se não me engano, é o estado com a maior quantidade de câmeras per capita do país. Então, o Governo tem investido, tem vontade de resolver e tem agido dessa forma para resolver os problemas da segurança pública.
Temos o programa Tolerância Zero, o secretário de segurança, é o coronel [César] Roveri, alguém da segurança pública na pasta, alguém de carreira. A gente vê que o Governo trata isso com seriedade, mas ainda precisamos de mais coisas. Precisamos de efetivo, precisamos de valorização, precisamos de equipamentos, porque o crime não para. Então, a habilidade deles em conseguir driblar a fiscalização é muito grande.
MidiaNews – O Gefron também faz operação em garimpo. É um ambiente mais violento? Qual é o principal foco do Gefron quando atua nessa área?
Airton Araújo – A verdade é que a atuação do Gefron nos garimpos, hoje, está quase que sobre demanda de outras instituições. O Gefron apoia muito o Ibama, apoia a Funai, apoia a própria Polícia Federal, que são as instituições determinadas constitucionalmente para área de garimpo, área de materiais preciosos. Então, estamos muito mais apoiando essas outras instituições, com a expertise de trabalhar no mato, com a expertise de passar por toda aquela área do treinamento rural que temos.
Então, a gente faz o possível para atender, o possível para fazer esse enfrentamento. Hoje, a região de fronteira é uma região muito delicada. Temos o município de Pontes Lacerda, que tem uma grande reserva indígena, a reserva indígena do Sararé, onde existe uma exploração ilegal grande. O Governo tem tentado alguma coisa, o Governo Federal tem algumas operações, mas dentro dessas operações, uma grande parte, ou pelo menos uma parcela da força que faz esse enfrentamento, é o Gefron.
MidiaNews – É comum que as apreensões resultem na prisão de traficantes ou geralmente acontecem mais fugas? Como está esse cenário?
Airton Araújo – O crime hoje é muito compartimentado, no sentido das informações. No tráfico, quem tem uma função pré-determinada, se é o líder de um determinado ponto, ou responsável por entregar algo do ponto A ao ponto B, ele só sabe disso, não sabe muito mais. E o Gefron age na flagrância.
Temos uma equipe de inteligência muito comprometida, que é referência para grande parte do país. Recebemos policiais militares, policiais federais, chegamos a receber policiais da Inglaterra no ano passado para conversarmos, para trocarmos experiências. O Brasil inteiro hoje compartilha de informações devido à confiabilidade, devido ao comprometimento e à perseverança desses policiais do Gefron. E agora eu estou voltando principalmente para o lado da inteligência.
Quando estamos procurando aquele cidadão que está na flagrância, que está conduzindo o carro roubado, que está levando o entorpecente, pilotando a aeronave com o entorpecente, fazemos essas apreensões. Mas uma pequena parcela dessas pessoas, às vezes, conseguem se foragir. Conseguem porque não estamos falando de uma cidade, são imensidões de matas, imensidões de água, locais totalmente isolados.
Então, tudo isso, naquele momento da abordagem, pode acontecer que uma dessas pessoas consiga foragir pela mata, outra não consiga… Não é a maioria, é uma pequena parcela, mas uma parte consegue.
MidiaNews – Há casos em que as apreensões expressivas acabam não resultando em condenações proporcionais a esses criminosos. Na visão do senhor, onde está o problema? É na legislação? É na investigação?
Airton Araújo – Penso que o Executivo tem uma parcela de culpa, às vezes, de deixar de fazer determinados procedimentos que eram necessários. Mas, para mim, a legislação em si, a lei, ao pé da letra, dá muita margem para que esses criminosos não fiquem presos. No meu ponto de vista, a margem da lei não é obrigatoriedade. Então, se a lei me dá margem para soltar, também me dá margem para deixar preso.
E, aí, depende de quem está interpretando isso. Então, assim, penso que a legislação precisa ser revista, até para que as margens de interpretação sejam menores e que as penas sejam endurecidas. O criminoso tem muito mais medo da antiga polícia por um tratamento violento. Isso, hoje, foi se acabando pela forma técnica com que as polícias vêm agindo, mas a única coisa que ele não tem medo é da justiça.
MidiaNews – Até por conta das solturas em audiências de custódia?
Airton Araújo – Ele sabe que vai sair na custódia porque é réu primário ou sabe que aquele crime dá a ele uma condição de pagar a fiança, claro que, principalmente nos crimes de descaminho, de contrabando. Não estamos falando de tráfico. Mas é o que eu digo: ao mesmo tempo que a lei dá a interpretação para soltar, também dá a interpretação para deixar preso. O marginal só tem medo da Polícia. Ele não tem medo da justiça mais.
Enquanto a Polícia, hoje, se vê acuada pela justiça. Porque, cada dia mais, os órgãos fiscalizadores voltam seus olhares para a polícia. Então, cada dia mais, trabalhamos com mais técnica, cada vez mais, nos dedicamos e, às vezes, acontece isso. Muitas das vezes, os criminosos são presos e soltos, o que é desanimador para o policial.
MidiaNews – Então, na avaliação do senhor, as leis penais não estão sendo suficientes para coibir esses crimes?
Airton Araújo – Há uma sensação de frouxidão das leis. Eu acho que a frouxidão das leis, com certeza, são, na minha visão, um estímulo. É um estímulo. Nós tivemos recentemente muitos casos de traficantes que tiveram bens liberados, que tiveram a própria liberdade de volta… E não são pessoas que estavam ali por engano.
O governo precisa investir naquela região de fronteira também, porque aquela região precisa se desenvolver, e a sociedade que lá está precisa ter alguma coisa para fazer. Precisa ter indústrias, precisam ter grandes indústrias. Os pequenos municípios precisam ter atrativo trabalhístico também para que esses menores não se envolvam no crime, se enveredem pelo lado do tráfico. E eu acho que isso faz um pouco de falta naquela região de fronteira.
MidiaNews – E quando ocorrem as prisões de flagrante, o que mais frustra os agentes? É a reincidência dos criminosos, a rápida soltura ou a dificuldade de atingir os chefes das organizações criminosas?
Airton Araújo – Isso é algo muito pessoal, mas para mim a reincidência é muito difícil. Você prender a mesma pessoa pelo mesmo crime reiteradas vezes, é muito difícil.
MidiaNews – E o senhor acredita que somente por meio de penas severas que vai ter real redução, vai ter real impacto no crime fronteriço ou o caminho passa por investimento?
Airton Araújo – Não podemos voltar, sempre que algo está problemático, o olhar às polícias. A segurança pública tem que dar uma resposta. E com certeza a responsabilidade, uma grande parte dessa responsabilidade é nossa, é do Gefron, é da Polícia Militar, é do Bombeiro, é da Politec, é da Polícia Civil, que juntos, de forma integrada, vamos conseguir oferecer um serviço de excelência para deixar aquele criminoso preso.
Mas antes de tudo, a gente sabe que o primeiro investimento para que o mundo do crime seja minimizado, é em educação. A gente sabe que a educação é um investimento a longo prazo, mas tem que começar. Eu acho que hoje temos boas referências, o Estado vem se destacando em algumas competições, grandes resultados no Enem, isso é primordial, mas a gente sabe que isso é a longo prazo, então temos que resolver o presente, e o presente é o enfrentamento. Temos que endurecer as leis, temos que melhorar as condições de trabalhos policiais, temos que dar condições, inclusive um respaldo jurídico para que isso aconteça.
E uma outra coisa é que essa região precisa ser incrementada, precisa ter investimento na área de produção, de produtividade, é uma área de extrema riqueza, temos minérios, é um exemplo na pecuária para o país inteiro, temos a agricultura chegando forte nessa região. Precisamos ter empresas, precisamos ter grandes indústrias.
MidiaNews – E quanto às facções criminosas, tem havido um aumento ou não da atuação dessas organizações lá na região e fronteira?
Airton Araújo – A região de atuação do Gefron é em grande parte em uma área desabitada, na área rural da região de fronteira. São aproximadamente 650 quilômetros de fronteira seca e 350 quilômetros de fronteira alagada. Nas áreas de patrulhamento do Gefron, a gente tem notado que as facções ainda não conseguiram se impor ou se implantar. E por diversos motivos.
Alguns municípios já têm essa dificuldade. A gente vê Cáceres, um município que está com dificuldade com as facções, apesar de que num olhar técnico de segurança pública, a gente entende que aquele município está sob o controle das polícias. Porque sempre quando há qualquer crime, por mais bárbaro que seja, em menos de 48 horas, a Polícia Militar e a Polícia Civil conseguem dar uma solução para aquele crime. Mas na nossa região, na região patrulhada pelo Gefron, ainda não há essa inclusão das facções.
MidiaNews – A população lá da região de fronteira tem o costume de colaborar com o Gefron, por proximidade, por também desejar mais segurança. Como que tem sido isso para o Gefron, essa ajuda dos moradores?
Airton Araújo – Nós sabemos que a maioria das pessoas daquela região são pessoas de bem. O Gefron tem um policiamento muito aproximado dessas pessoas. São pessoas do ambiente rural, e esse ambiente é diferente da cidade. As pessoas ainda convidam o policial para entrar, para tomar um café, para conversar, e isso é feito, e nisso é construída uma relação de confiança. E nessa relação de confiança, muito é passado aos policiais, e dali várias e várias apreensões surgem.
Temos 23 anos de existência e não podemos esquecer que foi criado justamente por conta desse clamor social, onde aquela área rural era uma área com uma dificuldade de segurança muito grande pela proximidade com a fronteira, e daí nasceu o Gefron para fazer esse enfrentamento. E hoje vemos que a região mais do que houve uma supervalorização, os fazendeiros têm orgulho de morar ali, têm orgulho de ter aquelas propriedades, de poderem investir, o que antes da criação do Gefron não podia.
Esse enfrentamento especializado, de operações de fronteira que o Gefron faz. Essa especialização desse grupo de homens foi destinada a combater e trabalhar na fronteira, especialmente com operações de fronteira, fez toda a diferença, principalmente na região rural, e acho que isso também faz com que as pessoas reconheçam bastante o nosso serviço.
MidiaNews – E quais são as prioridades do Gefron para 2026?
Airton Araújo – A prioridade do Gefron vai continuar sendo combater o crime, combater os crimes transfronteiriças, o tráfico de entorpecentes, a captura de foragidos da justiça que tentam se evadir para o país vizinho, os carros roubados… A principal meta nossa é continuar combatendo, mostrar força, mostrar para a criminalidade que em Mato Grosso a lei é dura, a polícia se impõe e vamos continuar se impondo.
Não existe um palmo de terra, não existe um metro quadrado de Mato Grosso que uma viatura da polícia militar ou da polícia civil não se faça presente, não resolva aquela situação, não existem bolsões onde a polícia não entra, muito menos na nossa fronteira. O Gefron jamais vai permitir que isso se instale lá. A meta é melhorar a segurança e tentar aumentar os índices de apreensões e é isso que a sociedade pode esperar do Gefron para o ano de 2026. (Midianews)
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