
O delegado responsável pela investigação sobre a morte de Cleci Calvi Cardoso, de 45 anos, e suas filhas Miliane Calvi Cardoso, de 19 anos, Manuela Calvi Cardoso, de 13 anos e Melissa Calvi Cardoso, de 10 anos, Bruno França, revelou, em um episódio da série “Investigação Criminal“, detalhes do crime que levaram à identificação do autor do crime, o pedreiro Gilberto Rodrigues dos Anjos, de 32 anos, condenado a 225 anos de prisão.
Os corpos das vítimas foram encontrados no dia 27 de novembro de 2023 e o crime, que ficou conhecido como a Chacina de Sorriso, município localizado na região norte de Mato Grosso, chocou a população de todo o país.
Bruno classificou o trabalho da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec) como brilhante, por ter identificado exatamente como o crime aconteceu, na noite do dia 24 de novembro, uma sexta-feira sangrenta.

Conforme a perícia, naquele dia, a cerca elétrica da casa estava desligada. Havia dois cachorros ferozes na casa, mas um andaime evitou que o criminoso pisasse no chão. Do muro, ele conseguiu colocar os pés na janela do banheiro e entrar na casa.
Cleci foi até a cozinha, acendeu a luz e se deparou com Gilberto. Ele pegou uma faca na gaveta, enquanto ela avançou nele para se defender. Durante a luta corporal, ela foi esfaqueada. A filha mais velha, Miliane, saiu do quarto para tentar socorrer a mãe, mas, ao chegar na cozinha, ela já estava ferida letalmente, segundo o delegado. Ali, ele também esfaqueou a jovem, que mesmo ferida, correu de volta para o quarto, pegou a irmã Manuela, arrombou a janela e tentou fugir.
No entanto, o criminoso agarrou as vítimas e as arrastou de volta. Marcas de mão ensanguentada ficaram na cortina. Ainda conforme a perícia, Gilberto deitou Manuela ao lado da cama, a estuprou e, durante o ato, a matou com um corte na garganta.
Miliane estava agonizando, devido à gravidade do ferimento. Mesmo assim, o pedreiro a arrastou para sala, mas puxou de volta, por conta de uma porta de vidro pela qual ele poderia ser visto do lado de fora. No momento, em que Miliane era arrastada pelo cabelo, ela levou a mão dela até a mão de Gilberto para tentar se soltar, ele então esfaqueou a mão dela e parte do cabelo dela ficou entre os dedos. Em algum momento, um tufo de cabelo de Gilberto foi retirado, mas não foi localizado em lugar nenhum.
Na sequência, ele estuprou ela e a mãe, Cleci, que também estava agonizando. As duas morreram em seguida. No interrogatório, já na delegacia, ele afirmou que matou Melissa porque ela estava chorando muito e teve medo dela chamar atenção dos vizinhos ou até mesmo da polícia. Gilberto ainda disse que não a estuprou “porque já não estava mais com vontade”.
Porém, o delegado contou que a equipe de investigação foi surpreendida pela informação do legista de que, depois de tudo, ele as estuprou de novo.
“Ou seja, ele ficou bastante tempo na casa, se lavou antes de ir embora, pegou a calcinha e saiu pela mesma janela por onde entrou, por causa dos cachorros”, relatou.
Segundo o delegado, parentes entraram em contato com o marido e pai das vítimas, Regivaldo Batista Cardoso, que estava viajando a trabalho, e comunicaram que não estavam conseguindo falar com Cleci, na sexta-feira. Após tentar contato e não conseguir, ele acionou a Polícia Militar. No dia seguinte, a equipe foi até a casa e não conseguiu entrar por causa dos cachorros no quintal, mas reparou que o ar-condicionado estava ligado e o carro encontrava-se na garagem.
A polícia tranquilizou Regivaldo, que continuou sem contato. No dia 27, ele solicitou ajuda novamente e a Polícia Militar percebeu que havia algo errado. Os policiais retornaram ao local e acionaram o Corpo de Bombeiros para conter os cachorros e conseguir entrar na casa. No local, o que os profissionais encontraram marcou a vida deles para sempre.
“Nós estávamos na delegacia, houve uma ligação de um colega do Corpo de Bombeiros e a notícia dada era tão absurda que o policial plantonista achou que tivesse entendido errado. Imediatamente, nós suspendemos todas as atividades e fomos até o local. Na casa, a gente viu uma janela com sinal de arrombamento e, por essa janela, a gente já conseguiu enxergar o corpo de uma das vítimas. O corpo em uma situação completamente assustadora e começamos a ter a dimensão do crime”, relatou Bruno.
O delegado contou que, ao abrir a porta da casa, a polícia encontrou mais dois corpos, com sinais visíveis de violência sexual, além de outro corpo em um dos quartos. Ao analisar a vizinhança, uma obra em andamento, com diversos homens trabalhando, chamou a atenção pelo acesso à casa, facilitado por um andaime no muro.
“Eu fui até mal interpretado quando disse que ali era um núcleo de suspeitos que tínhamos que eliminar antes de seguir com a investigação. Não estou dizendo que quem trabalha em obra tem perfil de estuprador, estava dizendo que o perfil do criminoso era homem de idade sexual ativa”, explicou.
Na casa, existiam várias impressões parciais de um chinelo. No entanto, o criminoso havia pisado em uma poça de sangue volumosa e, no passo seguinte, deixado uma impressão perfeita do calçado, segundo o delegado. Os pés das vítimas foram medidos e não restou dúvida de que a pegada era do criminoso. Quando o delegado estava indo em direção à obra, ele recebeu uma ligação.
“Era alguém da imprensa dizendo que uma seguidora queria falar comigo. Nessa hora, chega muita informação de vários lugares e a gente tem que filtrar, mas essa informação me chamou a atenção. Ela disse o seguinte: ‘o meu marido trabalha aí na obra e me contou algo que o incomodou. Ele me disse que quando descobriram os corpos na casa mais cedo, todos os pedreiros foram curiosos para olhar, menos um’. Aí já fiquei incomodado, por que essa curiosidade é do ser humano, não tem nada de sádico”, contou.
O delegado chamou os investigadores e disse que iriam interrogar todos os trabalhadores da obra, mas começariam por esse citado pela mulher na ligação. De acordo com Bruno, o principal suspeito era Gilberto e, durante a conversa, ele começou a se contradizer. Além disso, chegou a informação de que ele tinha dois mandados de prisão em aberto, um por latrocínio e outro por um crime semelhante a esse caso, uma mulher que tinha sido estuprada e tido a garganta cortada, em Lucas do Rio Verde (MT), mas que sobreviveu após um vizinho invadir a casa e impedir o crime.
“Nesse momento, a gente sabia que era ele, mas não tinha como o prender sem prova. Nós continuamos interrogando todos e descobrimos que na sexta-feira, só ele estava na obra porque ele era o caseiro e morava na obra. Na hora, ele disse que não tinha ouvido nada, o que não tem como ser verdade porque a obra é colada na casa das vítimas”, afirmou.
O delegado perguntou ao pedreiro se ele já havia sido preso ou tinha passagem pela polícia e ele respondeu que não. Então, o delegado pediu para Gilberto o levar até os pertences dele.
“Ao chegar lá, eu notei a ausência do chinelo e ele começou a negar que tinha chinelo. Insistimos até ele entregar o chinelo. Levamos até o perito, ele fez várias análises ao lado da impressão da pegada e afirmou que a impressão é do mesmo chinelo. Aí me deu um alívio por saber que estava indo na direção certa. Saí da casa e, ao me aproximar dele na obra, eu já não perguntei se foi ele, eu perguntei ‘por que você fez isso?’ E ele respondeu ‘me desculpe! Eu estava muito drogado’”, lembrou.
Ao ser questionado sobre a arma e as roupas usadas no crime, ele indicou que a faca estava na casa e as roupas estavam em um contêiner nas obras. Na sacola, além das roupas sujas de sangue, tinha também uma calcinha que, pelo tamanho, a polícia supôs que seria da vítima de 13 anos. À polícia, Gilberto pegou a peça de roupa limpa da gaveta da vítima.
Enquanto o delegado e o suspeito seguiam para o fundo da obra, o criminoso alegou que tinha ido até a casa para roubar, as vítimas o atacaram e ele se defendeu. Nesse momento, a população foi percebendo que tinha um suspeito e começou uma movimentação de tentativa de linchamento. Um policial orientou a não algemar Gilberto para não confirmar à população que ele realmente era o autor do crime. Ele foi colocado na viatura sem algemas.
Na delegacia, o suspeito confessou o crime “sem nenhum tipo de remorso”. Segundo Bruno, era notável durante o interrogatório que a tristeza dele era bem mais por ter sido preso do que pelo crime.
A condenação
Gilberto foi condenado a 225 anos de prisão pelos crimes de feminicídio, estupro e estupro de vulnerável, no dia 7 de agosto de 2025. Durante o julgamento, o promotor de Justiça Luiz Fernando destacou que o crime foi premeditado. Segundo ele, o réu observou a rotina da família e planejou cuidadosamente os detalhes da ação.
O delegado Bruno avaliou o caso e afirmou que nunca havia presenciado um crime, de violência desproporcional, como esse. Mesmo em Sorriso, onde existe uma guerra de facções criminosas e o homicídio passou a ser parte da rotina.

“O único alívio foi ter pego esse cara. O pilar da investigação de um homicídio é a motivação do crime, porque não é natural o ser humano tirar a vida do outro. Não que isso não aconteça, mas não acontece sem motivo. O problema das investigações dessa natureza é que o motivo só existe na mente pervertida do assassino e não temos como entrar na cabeça do cara”, analisou.
Além da chacina
A ficha criminal de Gilberto começa no ano de 2013, quando foi condenado em Mineiros (GO), por matar o jornalista Osni Mendes.

O crime aconteceu na noite do dia 21 de dezembro de 2012. Segundo o inquérito policial, Gilberto teria saído com Osni de carro. A vítima teria manifestado interesse em se relacionar com o réu. De acordo com o depoimento do acusado, a proposta sexual foi o motivo do crime.
Após isso, Gilberto pegou a própria camiseta e enforcou o jornalista, que já se encontrava inconsciente, pois já tinha sofrido agressões. Gilberto abandonou o corpo em uma rodovia local e fugiu com o carro da vítima indo se eonder na chácara de um amigo, mas acabou sendo preso.
Por esse crime, Gilberto ficou preso por cerca de sete meses. O advogado dele pediu a revogação da prisão, alegando que algumas diligências não haviam sido cumpridas pela polícia, e ele foi liberado pela Justiça.
Em março de 2025, a pena foi revisada e ele foi condenado a 17 anos de prisão pela morte de Osni.
No mesmo mês, ele foi condenado novamente a mais 22 anos de prisão pela Justiça de Mato Grosso por estupro e tentativa de homicídio contra a vítima de Lucas do Rio Verde. (Primeira Página)




