Com dores abdominais, cacique Raoni passa por exames em cidade de MT

Com dores abdominais, cacique Raoni passa por exames em cidade de MT

O lendário cacique Raoni Metuktire está internado no Hospital Dois Pinheiros, em Sinop (503  km ao Norte de Cuiabá). Segundo o boletim médico assinado pelo diretor clínico da unidade, Túlio Emanuel Orathes Ponte Silva, e divulgado na manhã desta sexta (8), o lendário cacique passou por avaliação clínica e fez exames laboratoriais e de imagem.

Ele tem uma hérnia diafragmática traumática crônica, resultado de um acidente sofrido há 20 anos. O médico acrescentou que o paciente convive com uma doença pulmonar obstrutiva crônica e usa marcapasso cardíaco.

O boletim descarta a necessidade de cirurgia, cita que o paciente “reage bem”, mas não estipula data para a alta hospitalar.

O médico Jorge Yanai, fundador do hospital, acrescentou que o cacique recebe atenção de uma equipe multidisciplinar, que conta com a participação do médico Douglas Antônio Rodrigues, especialista em Medicina Preventiva e Social, e coordenador do Ambulatório do Índio no Hospital São Paulo, na capital paulista.

Yanai destacou a fragilidade de Raoni, por conta de sua idade – 94 anos – e suas comorbidades.

Disse ainda que o cacique apresenta lucidez e que se locomove lentamente. Elei revelou que familiares de Raoni e outros aldeados em Capoto/Jarina o acompanham desde sua entrada no hospital, na terça-feira (6), quando começou a se sentir mal.

O líder caiapó sofreu dores abdominais quando se encontrava em sua aldeia, foi atendido em Peixoto de Azevedo (691 km ao Norte de Cuiabá) e removido para Sinop, distante 200 km.

HISTÓRICO – Debilitado por conta de uma hemorragia digestiva com origem numa úlcera gástrica, Raoni foi internado no Hospital Dois Pinheiros, em julho de 2020, e recebeu transfusão de sangue.

O boletim médico de 21 de julho daquele ano, assinado pelo médico Douglas Yanai, diretor do hospital e que o assistia, citou que o quadro do paciente era estável.

A idade avançada e o quadro emocional do cacique pela recente perda de sua mulher, Bekwyjká Metuktire, agravavam sua saúde, mas uma força interior apontava que sua alta poderia ocorrer no próximo final de semana, o que aconteceu.

Bekwyjká faleceu no dia 23 de junho de 2020, aos 90 anos, em Capoto/Jarina.

ELE – Raoni é o líder da Terra Indígena Capoto/Jarina, banhada pelas águas do Xingu e vizinha ao Parque Indígena do Xingu, mas sua voz se faz ouvir entre todos os aldeados brasileiros.

Nos anos 2000, foi ele quem despertou a comunidade internacional para os impactos ambientais que seriam causados com a construção da Hidrelétrica Belo Monte, no rio Xingu, em Altamira, no Pará.

Graças ao seu grito, o projeto sofreu adequações que amenizam a interferência na vida dos povos da floresta e nela própria.

Quando bradou contra o projeto de Belo Monte, não era uma figura anônima.

Entre abril e junho de 1989, apadrinhado por ninguém menos que Gordon Matthew Thomas Sumner, o súdito do rei Charles III, que atende pelo nome artístico de Sting, peregrinou por 17 países empunhando a bandeira pela vida caiapó.

Líder nato, descendente de uma tradicional linhagem de caciques caiapós, bem antes de se aproximar de Sting, Raoni elevava a voz do inconformismo.

Decidido e de poucas palavras, em 1984, Raoni se pintou com o urucum dos guerreiros para negociar a demarcação de Capoto/Jarina com o então poderoso ministro do Interior, coronel do Exército Mário Andreazza.

Esse território tem 634.915,22 hectares, com a maior área em Peixoto de Azevedo, ao lado do Parque Indígena do Xingu, e se estende ao Vale do Araguaia, em Santa Cruz do Xingu e São José do Xingu.

Raoni saiu vitorioso e ainda deu um literal puxão de orelhas em Andreazza, gesto que repetiria em 1999, com o mato-grossense presidente da Funai e ex-vice-governador, Márcio Lacerda.

Quando discutiu com Andreazza, Raoni sabia bem o que falava.

Foi ele quem negociou com o engenheiro João Carlos de Souza Meirelles o traçado da BR-080, que liga o Vale do Araguaia ao Nortão de Mato Grosso, num trajeto que num curto trecho é ladeado por Capoto/Jarina e o Parque Indígena do Xingu. Essa rodovia foi estadualizada e rebatizada para MT-322.

Em 2006, quando um avião da Gol Linhas Aéreas colidiu sobre Capoto/Jarina com um jato executivo Legacy, causando 154 mortes, Raoni acompanhou os repórteres que foram ao local dos destroços.

Removidos os corpos, entrou em cena o cacique para negociar, com o Ministério Público Federal e a Gol, uma indenização ao seu povo, o que conseguiu.

Radical, mas sem radicalizar, Raoni costuma se juntar a políticos e cumpre bem seu papel.

Quando a Fifa escolhia as 12 sedes para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, ele veio a Cuiabá, a convite do então governador Blairo Maggi, para defender a capital mato-grossense junto ao cartola Ricardo Teixeira, da CBF, e o mandachuva Jérôme Valcke, que dava as cartas no futebol mundial.

Em setembro de 2019, Raoni foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz, em 2020.

Ele foi o segundo brasileiro (e também mato-grossense) que recebeu a honrosa indicação. Houve intensa movimentação nas redes sociais em defesa de seu nome.

Antes dele, em 1925 e 1957, o Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon também esteve no rol dos indicados.

A proposta de indicação do líder xinguano partiu da Fundação Darcy Ribeiro; o físico Albert Einstein, em 1925, e o Explorer Club de Nova York, em 1957, apresentaram o nome do Marechal Rondon.

Antes da viuvez com o adeus de Betkwykà, Raoni era cidadão do mundo, acima do endereço domiciliar aldeado. Tanto podia se encontrar em Capoto/Jarina como em qualquer outro lugar, independentemente de seu continente.

Agora, acamado, o grande líder trava a mais importante batalha de sua existência. Essa, pela vida, que teima em escorrer entre os dedos pelo implacável relógio biológico.

Que Capoto/Jarina seja seu próximo e breve destino. O povo xinguano continua precisando de sua voz, exemplos e ensinamentos.

O mundo torce por ele nessa luta sem pintura de guerra travada numa UTI, em silêncio, pelo bater do coração de um dos brasileiros mais conhecidos mundo afora. (Diário de Cuiabá)