Um relatório da Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (Deccor), que culminou a Operação Gorjeta, deflagrada nessa terça-feira (27), detalha como parte dos recursos públicos teria sido desviada para benefício particular. Conforme o documento, o vereador Chico 2000, principal alvo, utilizou R$ 20 mil provenientes de emendas parlamentares destinadas a eventos esportivos em Cuiabá para custear obras de reforma e construção da pousada Estância Águas da Chapada, empreendimento ligado a ele, situado no quilômetro 40 da rodovia MT-251.
De acordo com a investigação, o valor teria origem em um suposto esquema de “rachadinha”, no qual parte dos recursos públicos repassados por meio das emendas era devolvida ao parlamentar.
O relatório descreve uma sequência de conversas e movimentações financeiras que, segundo a apuração, estariam relacionadas ao repasse de R$ 20 mil por meio de transferência via PIX. A transação teria ocorrido em 9 de abril de 2025, após trocas de mensagens que mencionam a cotação de materiais e a necessidade de um valor de entrada para o início de um serviço.
O documento também registra que o Instituto Brasil Central (Ibrace), entidade investigada no esquema, recebeu R$ 600 mil do município para a realização da 36ª Corrida do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Dois dias antes da transferência investigada, há diálogo atribuído a Chico 2000 solicitando a um pedreiro, a cotação de materiais e o valor de entrada para dar início a uma obra de esquadrias em um restaurante.
Na conversa, o trabalhador informa que já havia feito as cotações e que seria necessário efetuar o pagamento para retirada dos materiais, estimando o valor em “20 e poucos mil reais”. Ele questiona se o pagamento poderia ser feito até os dias 9 ou 10 de abril.
Ainda conforme o relatório, em 9 de abril de 2025 o Ibrace recebeu mais R$ 400 mil, desta vez referentes à “6ª Corrida do Legislativo”. Na mesma data, as mensagens se intensificam. Chico 2000 pergunta a um contato do gabinete se o dinheiro “já chegou”, recebendo a resposta “nada”. Em seguida, questiona ao empresário João Nery Chiroli, proprietário da Chiroli Uniformes que também é um dos alvos da operação, se o valor “tá chegando”. A resposta foi que o recurso “saiu”, com a informação de que ele estaria deixando uma agência bancária.
Consta nos autos que posteriormente foi feita uma transferência via PIX da empresa Chiroli Esportes para o pedreiro do parlamentar. Um minuto depois do depósito, o trabalhador envia áudio afirmando: “Chico, acabou de cair o dinheiro aqui, tá bom? Pode deixar comigo, vamos terminar lá rapidão…”. Em seguida, o vereador recebe um comprovante de PIX no valor de R$ 20 mil, acompanhado da mensagem “na conta”.

“O vereador Chico 2000 destinou elevados valores, por meio de emendas impositivas, para o IBRACE realizar eventos consistentes em corridas de rua, em Cuiabá. Entretanto, a empresa Chiroli Esportes era, de fato, a organizadora dos eventos, por meio do seu proprietário João Nery Chiroli, que informalmente representava o IBRACE”, diz trecho do documento.
Operação Gorjeta
A Operação Gorjeta cumpre 75 ordens judiciais com o objetivo de desarticular um esquema que teria causado prejuízo ao município de Cuiabá, especialmente à Câmara de Vereadores e à Secretaria Municipal de Esportes. As investigações, conduzidas pela Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (Deccor), apuram os crimes de peculato, associação criminosa e lavagem de dinheiro.
Segundo a Polícia Civil, o grupo investigado teria direcionado emendas parlamentares a um instituto sem fins lucrativos e a uma empresa, com parte dos recursos sendo posteriormente devolvida ao vereador responsável pela destinação das verbas.
Entre as decisões judiciais estão 12 mandados de busca e apreensão, 12 ordens de acesso a dados de dispositivos móveis, além da suspensão do exercício da função pública de dois servidores da Câmara e do afastamento de um vereador do mandato. Também foram impostas medidas cautelares a seis investigados, como proibição de contato entre si, de acesso a prédios da Câmara e da Secretaria de Esportes, de deixar a Comarca e a entrega de passaportes.
Além de Chico e Chiroli, estão entre os alvos Joacir Conceição Silva, Alex Jones Silva e Magali Gauna Felismino Chiroli.





