Caminhoneiro de MT alerta para risco de ‘apagão’ nas estradas e busca apoio para ser o representante da categoria

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O caminhoneiro Sillo Boasorte quer ser o representante político da categoria. Foto: Reprodução

A vida nas estradas brasileiras tem se tornado cada vez mais difícil para os caminhoneiros, que denunciam abandono, falta de assistência e condições precárias de trabalho. Otacílio da Silva Viegas, conhecido como Sillo Boasorte, caminhoneiro experiente, afirma que muitos profissionais estão deixando a profissão e alerta para o risco de um ‘apagão’ no setor de transporte rodoviário. Assim, após reuniões com vários caminhoneiros, ele chegou à conclusão de que o setor precisa ter urgentemente um representante político para brigar pelos interesses da categoria.

Em entrevista ao site Baixada Cuiabana, ele afirma que a categoria enfrenta problemas que vão desde salários baixos até a insalubridade da rotina. “É difícil falar de insalubridade, mas é verdade. Muitos motoristas morrem de mal súbito sem sequer saber que eram hipertensos”, relata. A ausência de políticas públicas voltadas para a saúde dos caminhoneiros é apontada como um dos maiores desafios.

Politicamente, a classe sofre com a falta de representatividade. “Não há liderança ou sindicato que fale em nome de todos. As conversas acontecem nas filas de carga e descarga”, explica. Para o futuro, Sillo defende que os governos liberem crédito para que caminhoneiros possam adquirir seus próprios veículos, assim como ocorre com o agronegócio.

No entanto, ele é enfático: “Precisamos já de um representante que seja a voz da categoria”. E pontuou que se prontifica a essa missão, já estando à disposição de algum partido político que tenha a sensibilidade com os trabalhadores da área.

O caminhoneiro também pediu maior atenção da mídia com a categoria: “Infelizmente nós só viramos notícia quando sofremos um acidente e ficamos presos às ferragens e morremos. No entanto, quando nos unimos em busca dos interesses da categoria, não temos os ouvidos dos meios de comunicação nem em Mato Grosso e nem em nenhum outro lugar do Brasil. Gostaríamos de ter a oportunidade de falar de nossos projetos para a categoria e receber a devida atenção, mas, que isso não seja apenas quando deixamos órfãos os nossos filhos. Tenho gratidão e total respeito a todos na imprensa que levam a notícia a sério”.

Desmobilização e racha

Sobre os movimentos que marcaram a história recente dos caminhoneiros, Sillo reconhece que houve desmobilização e desconfiança após greves passadas. “Há quem diga que líderes receberam propina para facilitar desbloqueios. Isso gerou divisão entre gerações e esfriou os protestos”, comenta. Para ele, a retomada de grandes paralisações não está nos planos imediatos: “Nós morremos trabalhando e não temos tempo para parar prá nada”.

Mesmo assim, ele defende a necessidade de um representante legítimo da categoria no Congresso, alguém que fale de igual para igual com os trabalhadores, sem paletó e sem gravata. “Ser liderança de caminhoneiro não é nada fácil, mas temos o interesse em ter alguém que nos represente”, afirma.

Em entrevista ao site Baixada Cuiabana, o caminhoneiro Sillo Boasorte falou da realidade enfrentada nas estradas, sobre a falta de uma liderança política e o que espera para que a categoria seja valorizada como merece.

Veja a íntegra da entrevista:

Pergunta: Como está o movimento dos caminhoneiros pelo Brasil hoje?
Resposta: Crítico! Muitos profissionais estão deixando a profissão, o Brasil corre o risco de sofrer um apagão devido à falta de motorista. Os problemas vão desde o salário até a insalubridade.

Pergunta: Na sua opinião, como está o país hoje, economicamente e politicamente?
Resposta: A incerteza tem causado instabilidade e rotatividade de motoristas entre as empresas.

Pergunta: Como é a vida hoje do caminhoneiro no Brasil? Quais são as dificuldades?
Resposta: É muito difícil. Não temos acesso à saúde porque moramos fora de casa. Para se ter uma idéia, muitos motoristas morrem de mal súbito sem saber que eram hipertensos. Estamos carentes de políticas públicas voltadas para a saúde.

Pergunta: Os caminhoneiros têm algum líder? E onde ocorrem as reuniões para tratar dos interesses da categoria?
Resposta: Não há liderança ou sindicato que fale por todos. As conversas acontecem nas filas de carga e descarga.

Pergunta: E não há a necessidade de uma liderança?
Resposta: Ser liderança não é fácil. A categoria é estressada e nervosa. Mas existe interesse em ter um representante legítimo no Congresso, sem paletó e sem gravata.

Pergunta: E quais são as principais necessidades da categoria hoje?
Resposta: Melhores condições de alimentação e higiene nos locais de carga e descarga.

Pergunta: O que o Sr., como caminhoneiro, espera do governo nos próximos anos?
Resposta: Esperança de que o cenário global não nos atinja ainda mais, como já acontece com a alta do diesel e esperança de que os próximos presidentes liberem crédito, assim como acontece no agronegócio, para caminhoneiros comprarem seus próprios caminhões.

Pergunta: Não está faltando um representante político para a categoria?
Resposta: Qual as dificuldades que um partido político de Mato Grosso tem em bater o martelo de dizer sim para que um caminhoneiro possa ser representante pelo estado? Sim, precisamos de um representante legítimo da categoria. Então, a nossa reivindicação é para que um dos partidos bata o martelo e diga sim a um caminhoneiro para assumir a luta da categoria e a qual me disponho a enfrentar.

Pergunta: Com a guerra no Oriente Médio, a que consequências pode chegar o transporte de cargas no país?
Resposta: Já causa um grande prejuízo, principalmente na questão dos alimentos. O diesel mais caro aumenta os preços e preocupa a todos.

Pergunta: Os caminhoneiros tiveram um papel importante com os movimentos realizados em todo o Brasil há alguns anos. O que aconteceu? Houve uma desmobilização?
Resposta: Sim. Houve desconfiança. Alguns dizem que líderes receberam propina para facilitar desbloqueios. Isso dividiu gerações e esfriou os protestos. Depois das eleições de 2022, o racha e a desconfiança aumentaram.

Pergunta: É possível que haja uma retomada dos movimentos em breve?
Resposta: Não há essa cogitação. Nós morremos trabalhando e não temos tempo para parar.