Operação revela como facções criminosas escolhem quem vai morrer
As execuções promovidas por facções criminosas em Mato Grosso não são fruto de decisões impulsivas nem de ações isoladas. Antes que o primeiro disparo seja feito, existe uma cadeia organizada de coleta de informações, monitoramento, julgamento clandestino e planejamento da execução.
A Polícia Civil identificou que organizações como o Comando Vermelho estruturaram um verdadeiro sistema paralelo de “inteligência”, capaz de investigar, julgar e condenar pessoas sem qualquer respaldo legal.
Esse mecanismo preocupa as forças de Segurança porque, além de fortalecer o domínio territorial das facções, vem produzindo um número crescente de mortes motivadas por falsas suspeitas, denúncias sem comprovação e interpretações equivocadas de fotografias, tatuagens, amizades e até gestos feitos com as mãos.
Segundo o delegado Paulo César Brambilla, responsável por investigações em Sorriso (420 km ao Norte de Cuiabá), dois homicídios recentes demonstraram o grau de fragilidade desse sistema.
O tatuador Leandro Perboni e a moradora Elismar Saltiva Sales foram executados, após serem classificados como integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC).
As investigações, porém, concluíram que não havia qualquer elemento que comprovasse essa ligação.
Para os investigadores, a chamada inteligência das facções funciona de maneira improvisada.
Integrantes monitoram perfis em redes sociais, analisam fotografias, acompanham conversas em grupos de WhatsApp, observam tatuagens, verificam amizades e recolhem informações fornecidas por colaboradores espalhados pelos bairros dominados pelo tráfico.
Muitas vezes, uma denúncia falsa ou uma interpretação equivocada basta para que alguém passe a ser tratado como inimigo.
A banalização dos critérios utilizados pelos criminosos também chama atenção.
Conforme a Polícia Civil, um simples gesto feito durante uma fotografia pode ser interpretado como demonstração de pertencimento a uma facção rival.
A partir daí, a pessoa passa a ser monitorada até ser capturada e levada ao chamado “tribunal do crime”.
Nesses julgamentos clandestinos, não existe direito de defesa.
A vítima é interrogada, frequentemente torturada e submetida à decisão de integrantes com posição de comando dentro da organização.
Em muitos casos, a sentença já está previamente definida: a execução.
Foi esse o procedimento identificado pela Polícia Civil, na investigação da morte de Karine Estefane Pereira dos Santos, de 21 anos, assassinada em Sorriso.
A jovem foi submetida a um “tribunal do crime”, sob a acusação de vender drogas sem autorização da facção e foi executada com um tiro na cabeça.
As investigações apontaram que o homicídio envolveu uma estrutura organizada composta por adolescentes, adultos responsáveis pela logística e um mandante, que permanece foragido no Rio de Janeiro. A
ADOLESCENTES NA LINHA DE FRENTE – O caso também evidencia outra estratégia recorrente das organizações criminosas: o recrutamento de adolescentes para atuar como executores.
Segundo investigadores, menores são atraídos por promessas de dinheiro, prestígio dentro da facção e pela falsa percepção de que sofrerão punições mais brandas, caso sejam apreendidos.
Muitos começam desempenhando funções de olheiros, responsáveis por vigiar a movimentação da Polícia ou monitorar possíveis rivais.
Com o tempo, passam a transportar drogas, armas e, posteriormente, são utilizados em homicídios.
A utilização de adolescentes dificulta o enfrentamento das facções e amplia o desafio das políticas públicas voltadas à prevenção do recrutamento de jovens pelo crime organizado.
UMA REDE MUITO MAIOR QUEO ATIRADOR – As investigações demonstram que uma execução dificilmente depende apenas da pessoa que aperta o gatilho.
Atrás de cada homicídio existe uma estrutura composta por responsáveis pelo levantamento de informações, olheiros, motoristas, pessoas encarregadas de guardar armas, vigias, integrantes que transportam vítimas e colaboradores encarregados de garantir a fuga dos executores.
No assassinato de Karine Estefane, por exemplo, além dos adolescentes apontados como executores, a Polícia Civil identificou uma mulher responsável pelo apoio ao grupo, um suspeito ligado à logística da ação e um mandante que teria coordenado o crime à distância.
Segundo a Polícia, essa divisão de tarefas permite que a organização mantenha suas atividades, mesmo quando alguns integrantes são presos, além de dificultar a responsabilização de todos os envolvidos.
MULHERES GANHAM ESPAÇO NAS FACÇÕES – Outra transformação observada pelas forças de Segurança é a ampliação da participação feminina dentro das organizações criminosas.
Se antes elas apareciam, principalmente, como companheiras de traficantes, hoje ocupam funções de apoio logístico, transporte de drogas e armas, monitoramento de vítimas, arrecadação de dinheiro e participação direta em ações criminosas.
Ao mesmo tempo, continuam entre as principais vítimas da violência imposta pelas próprias facções.
O caso Karine revela esse cenário.
A investigação aponta que uma mulher participou do apoio aos executores.
Pouco antes, outra mulher, Nayana Miranda Conceição, também foi assassinada pelo mesmo grupo criminoso.
Já em Pedra Preta (238 km ao Sul de Cuiabá), quatro mulheres foram resgatadas pela Polícia Civil de um cárcere onde seriam submetidas ao chamado “salve”, enquanto duas mulheres acabaram presas por participação na organização criminosa responsável pelo sequestro.
Para especialistas em Segurança Pública, a evolução dessa estrutura demonstra que as facções deixaram de atuar apenas como grupos voltados ao tráfico de drogas e passaram a exercer funções típicas de organizações paralelas de poder, criando seus próprios mecanismos de investigação, julgamento e punição.
Ao desmontar essas estruturas, afirmam os investigadores, a Polícia combate não apenas os executores dos homicídios, mas também um sistema clandestino que busca controlar comunidades inteiras, por meio do medo e da violência.
A ENGRENAGEM DE UMA EXECUÇÃO
1. Escolha do alvo
– denúncias internas;
– grupos de WhatsApp;
– redes sociais;
-fotografias;
– tatuagens;
– amizades;
– boatos.
2. Monitoramento
– olheiros acompanham a rotina da vítima;
– confirmação de endereços e deslocamentos.
3. Tribunal do crime
– interrogatório clandestino;
– tortura;
– decisão da liderança.
4. Planejamento
– definição dos executores;
– apoio logístico;
– veículos;
– armas;
– rotas de fuga.
5. Execução
adolescentes frequentemente são utilizados como atiradores;
– adultos coordenam e garantem a logística da ação.
6. Pós-crime
– fuga dos executores;
– destruição de provas;
– ocultação de armas;
– tentativa de intimidar testemunhas (Diário de Cuiabá)
