Abuso sexual infantil migra para a internet e desafia Polícia
A prisão de um jovem de 18 anos, nesta terça-feira (21), durante a terceira fase da Operação Cesi-MT, deflagrada pela Polícia Civil em Nova Mutum (267 km ao Norte de Cuiabá), evidencia uma mudança no perfil dos crimes de exploração sexual infantil. Agora, a violência deixou de ocorrer apenas no ambiente físico e passou a se esconder também atrás das telas de computadores e celulares.
Embora o caso tenha resultado no cumprimento de um mandado de prisão preventiva por armazenamento de material de abuso sexual infantojuvenil, investigadores alertam que esse tipo de crime integra uma rede internacional de circulação de arquivos.
A identificação depende de tecnologia, cooperação entre instituições e rastreamento digital. A operação foi conduzida pela Delegacia Especializada de Repressão a Crimes Informáticos (DRCI), com apoio do Núcleo de Atendimento à Mulher e Vulneráveis de Nova Mutum.
As investigações começaram após a identificação de indícios de armazenamento de arquivos contendo material de abuso sexual infantil na internet.
Durante a apuração, policiais cumpriram mandado de busca e apreensão, recolheram equipamentos eletrônicos e reuniram provas que fundamentaram a prisão preventiva do investigado.
Em uma fase anterior da investigação, outro suspeito também foi preso em flagrante por armazenar centenas de arquivos da mesma natureza.
ALÉM DO COMPARTILHAMENTO – Especialistas em crimes cibernéticos ressaltam que muitas pessoas ainda acreditam que somente quem produz imagens de abuso sexual infantil pratica crime.
No entanto, a legislação brasileira também pune quem armazena, compartilha, distribui, adquire ou mantém esse tipo de conteúdo em qualquer dispositivo eletrônico.
Cada arquivo armazenado representa a continuidade da violência sofrida pela criança ou adolescente retratado, razão pela qual as investigações têm como objetivo interromper toda a cadeia de circulação desse material.
Ao contrário do que muitos imaginam, o anonimato na internet é limitado.
A DRCI utiliza técnicas de inteligência digital capazes de identificar computadores, telefones celulares, contas utilizadas em plataformas de compartilhamento, endereços de conexão e outras evidências eletrônicas que permitem localizar suspeitos.
Depois da identificação inicial, o Poder Judiciário pode autorizar buscas, apreensão de equipamentos e perícia dos dispositivos eletrônicos.
A análise desse material frequentemente revela novos investigados, ampliando o alcance das operações policiais.
No caso da Operação Cesi-MT, a perícia realizada nos equipamentos apreendidos foi decisiva para fundamentar o pedido de prisão preventiva e aprofundar as investigações.
COOPERAÇÃO INTERNACIONAL – Grande parte dos arquivos investigados circula por plataformas digitais utilizadas em diversos países.
Por isso, o combate a esse tipo de crime depende da troca de informações entre órgãos nacionais e internacionais especializados em crimes cibernéticos.
Alertas emitidos por plataformas digitais, bancos internacionais de imagens e mecanismos de cooperação policial permitem que investigações iniciadas em outros países resultem na identificação de usuários brasileiros envolvidos na cadeia de armazenamento e compartilhamento.
As investigações realizadas em diferentes operações mostram que não existe um perfil único.
Os suspeitos podem ser estudantes, profissionais liberais, servidores públicos ou trabalhadores de diversas áreas.
Também não há faixa etária predominante.
Essa diversidade reforça a necessidade de monitoramento permanente e do uso de inteligência digital para identificar criminosos que atuam de forma discreta, muitas vezes sem qualquer antecedente criminal.
TRABALHO ESPECIALIZADO – Criada para enfrentar crimes praticados no ambiente virtual, a Delegacia Especializada de Repressão a Crimes Informáticos reúne policiais capacitados em análise forense digital, rastreamento eletrônico e preservação de provas tecnológicas.
Além das investigações relacionadas à exploração sexual infantil, a unidade atua no combate a fraudes eletrônicas, invasão de dispositivos, golpes financeiros e outros delitos praticados pela internet.
Segundo a Polícia Civil, operações como a Cesii-MT têm dois objetivos principais: responsabilizar criminalmente os envolvidos e retirar de circulação arquivos que perpetuam a violência contra crianças e adolescentes.
Para os investigadores, o ambiente digital oferece rapidez para a disseminação desse material, mas também deixa rastros que, quando corretamente analisados, permitem identificar os autores e interromper redes criminosas que atuam muito além das fronteiras de Mato Grosso. (Diário de Cuiabá)
