Vaticano avalia dois novos beatos assassinados há 50 anos em MT; entenda
Está em adiantado processo de análise pela Igreja Católica a causa de beatificação do padre alemão Rodolfo Lunkenbein e do fiel indígena Simão Bororo. Eles podem se tornar o segundo e terceiro beatos do estado. Para que isso ocorra, é preciso que o Vaticano reconheça que foram vítimas de martírio, isto é, que morreram por causa da sua fé. Não há um prazo para que o procedimento seja concluído, mas ele já percorreu quase todas as etapas necessárias. O crime completa 50 anos na próxima quinta-feira (15).
No momento, um grupo de cardeais analisa toda a documentação e apresentará uma espécie de “parecer” ao papa Leão XIV, que é quem dará a palavra final. Nessa primeira fase do processo, que pode elevar os dois ao posto de beatos, o que a Igreja faz é uma investigação para identificar se as mortes foram, de fato, por causa da fé professada pelas vítimas.
“Uma investigação está sendo feita, está quase no final, para haver ou não o reconhecimento do martírio. Essa é uma análise profunda, ampla, para reconhecer ou não esse martírio”, explica Euclides Fernandes, jornalista e porta-voz dos salesianos em Mato Grosso.
No mês passado, foi beatificado o padre Nazareno Lanciotti, em uma cerimônia realizada em Jauru (425 km de Cuiabá), com a participação de um representante do papa. Italiano de nascimento, Nazareno passou metade da sua vida atuando como missionário em Mato Grosso. Ele foi morto a tiros após ter feito várias denúncias de exploração de menores, prostituição e tráfico de drogas na região da fronteira do Brasil com a Bolívia. Seu martírio, reconhecido pela Igreja, estava relacionado à defesa dos vulneráveis.
Divulgação
Fotos disponíveis de Simão Bororo têm resolução ruim, o que levou ao uso de IA para as representações.
O caso do padre alemão não é muito diferente. O primeiro contato de Rodolfo Lunkenbein com o povo Bororo foi em 1963, quando esteve no Brasil no período de sua formação como padre da ordem Salesiana. Esse contato se deu na área em que aquela ordem já mantinha atuação, nas proximidades de General Carneiro e Barra do Garças (442 e 509 km de Cuiabá).
Após ser ordenado padre, em 1969, ele retorna ao estado e passa a atuar na defesa dos direitos e da cultura dos Bororo, especialmente no confronto com fazendeiros locais que tinham interesse nas terras dos indígenas.
Na manhã daquele 15 de julho de 1976, cerca de 62 homens armados invadiram a área onde estava a sede da missão salesiana na região conhecida como Meruri. O padre Rodolfo foi morto a tiros pelo trabalho em defesa da demarcação de terras para aquele povo indígena. Simão Bororo, amigo do padre, morreu baleado ao tentar salvá-lo.
Outros quatro indígenas ficaram feridos e um dos invasores morreu, atingido por uma bala perdida durante o ataque.
O reconhecimento oficial da Igreja Católica de que houve martírio faz com que as vítimas sejam reconhecidas como beatas de imediato. Mas existe todo um processo burocrático da Igreja para fazer com que os casos cheguem com segurança para a avaliação do Vaticano.
“Entre os salesianos, há uma grande expectativa de que haja esse reconhecimento do martírio. Entre os fiéis, principalmente entre os Boe-Bororo, existe uma expectativa muito grande. Há um devocional em torno do padre Rodolfo e do Simão Bororo lá na região”, explicou Euclides, ressaltando os 50 anos do caso, que será recordado pelos fiéis no Brasil e na Alemanha, terra natal do padre.
Como se faz um santo
O padre Evandro Stefanello, que é o responsável pelo Tribunal Eclesiástico de Mato Grosso, explicou ao Gazeta Digital como é o processo para que uma pessoa seja reconhecida como beata, mártir ou santa pela Igreja Católica. Inicialmente, há a diferença entre a beatificação e a canonização. Somente após a canonização um indivíduo será reconhecido como santo por todos os fiéis católicos no mundo inteiro.
“A beatificação pode ser iniciada por dois fatos: pela existência da fama de santidade, e aí é necessário um milagre comprovado; ou pela outra via, que é a via do martírio, a via da entrega e da oferta de vida. A via do martírio para a beatificação não precisa de um milagre comprovado, mas o processo tem que comprovar que, de fato, a morte daquela pessoa foi em ódio à fé”, explicou.
Apesar da “dispensa” da exigência de milagres na beatificação por causa do martírio, a canonização obrigatoriamente só ocorrerá com a apresentação e devida comprovação de um milagre atribuído à intercessão do beato junto a Deus. Mas essas são as últimas etapas do processo, que começa nas bases da diocese e caminha, lentamente, até chegar ao escritório do papa, que é quem toma a decisão.
“A primeira coisa é a nomeação de um postulador. O autor da causa pode ser uma diocese, um instituto religioso, uma associação de fiéis. O autor da causa nomeia o postulador, que vai promover a causa”, explica o padre Stefanello.
De imediato, o postulador deve recolher e verificar manuscritos que o candidato possa ter deixado, ouvir testemunhas que conheceram e conviveram com o candidato e, quando se trata de casos mais antigos, ajuntar biografias e documentos históricos. Na sequência, é feito o pedido de abertura da causa. O trabalho para que a Igreja reconheça as virtudes ou o martírio de alguém só pode começar depois que o Dicastério para a Causa dos Santos, órgão do Vaticano, expeça o “nihil obstat”, isto é, o nada consta.
“O Dicastério para a Causa dos Santos verifica se não tem nada em contrário e se a causa pode ter andamento. Aí o dicastério vai conceder o nihil obstat para que o processo possa caminhar”, explica o padre. Esse documento garante que o candidato a beato ou santo não publicou heresias em vida, não se afastou da comunhão com a Igreja ou se não foi alvo de algum tipo de penalidade imposta pela Igreja.
Com o nada consta, o processo pode avançar. E, mesmo sem ser beato ou santo, o candidato passa a ser chamado “servo de Deus”. Na sequência, tem inicío um verdadeiro tribunal, sob a direção do bispo local, para assegurar a fidedignidade e a veracidade do que está sendo registrado no processo. O bispo nomeia nessa fase um delegado, um promotor de justiça e um grupo de peritos teólogo para dar apoio.
“O processo sempre vai se encaminhando para o sentido [de garantir] que a Igreja nunca erre quando chega a uma declaração de beato ou santo. Na história da Igreja não tem ninguém que deixou de ser santo ou beato”, explica Evandro Stefanello.
Ouvidas as testemunhas e feita a investigação da vida do candidato, todo o processo é autenticado, lacrado e enviado para Roma, onde começa uma nova fase desse processo minucioso. “A primeira coisa que o Dicastério para a Causa dos Santos vai avaliar é a validade jurídica da investigação, ou seja, se a investigação seguiu os passos, toda a legislação da Igreja em relação a esses processos de beatificação e canonização”, explica o padre.
A primeira fase é a análise de competência do tribunal diocesano. Via de regra, o bispo que tem autonomia para pedir a abertura do processo é aquele responsável pela região onde o candidato morreu. Um exemplo de exceção foi o caso do padre Nazareno, que morreu em São Paulo, mas que o Vaticano autorizou que fosse a diocese de Cáceres a responsável pelo processo.
Na sequência é designado um relator, que é a pessoa que vai acompanhar todo o processo pelo Vaticano. Junto com o postulador da diocese, é o responsável por elaborar a positio, que é um dossiê histórico e teológico que ateste as suas virtudes ou o seu martírio. Em alguns casos, esse documento passa das 3 mil páginas A positio é encaminhada para o exame dos teólogos do dicastério, em um grupo de 8 a 10 especialistas. Eles votam no sentido de concordar ou discordar com a causa proposta ou sobre o reconhecimento dos milagres apresentados, por exemplo.
Aprovada pelos teólogos, a causa segue para o exame dos cardeais e bispos do dicastério. É a última etapa antes de os documentos serem encaminhados para o escritório do papa. E é onde está o processo do padre Rodolfo Lunkenbein e de Simão Bororo. “Geralmente, sempre quando [o processo] chega para os cardeais e os bispos, já aprovado pelos teólogos, dificilmente a causa volta para trás”, explica o padre.
Depois que o papa publica a declaração que reconhece o candidato como beato, o processo recomeça para a causa de canonização, que é quando a santidade deve ser reconhecida por todos os católicos do mundo. (GAzeta Digital)
