Câmeras registram descarregamento de cestas desviadas por vereador; colega emprestou casa para esconder carga

Câmeras registram descarregamento de cestas desviadas por vereador; colega emprestou casa para esconder carga
Foto: Reprodução/Olhar Direto

Vídeos colhidos pela operação Mesa Vazia registraram a ação de entrega e descarregamento ilegal de cestas básicas por servidores e vereadores de Barra do Garças, em dezembro de 2025. Conforme as investigações, o grupo teria desviado quase R$ 2 milhões em cestas e kits para higiene e limpeza que deveriam ser remetidos às pessoas em vulnerabilidade social da cidade. As imagens são do Olhar Direto.

Segundo a Polícia Civil, os vereadores Valdeí Leite Guimarães (PRB), Adilson Tavares Lopes (PODE), Allan Construtor (PODE), Armando José de Brito (PMB) e Elton Melo (PODE), além dos servidores públicos Benier Marcos Silva e Renato de Souza Soares, integrariam o esquema. Representação da 1ª Delegacia da Civil do município pediu a prisão deles, mas o juiz Luis Felipe Lara de Souza negou, mantendo a proibição de contato entre eles e o acesso de Benier e Renato às dependências da Agência de Regulação e Fiscalização (AGIRF).

Segundo a representação, Valdeí Leite Guimarães, o “Pebinha”,  seria o responsável pelo núcleo de armazenamento clandestino. Ele teria usado uma residência particular (em nome de sua esposa) para estocar cerca de 400 cestas básicas do Estado, o que serviria como ponto de apoio para que outros agentes buscassem a carga fora dos canais oficiais.

Allankley Lopes de Souza, o “Alan Construtor”, atuaria no núcleo de apoio logístico, sendo responsável pelo recebimento, armazenamento temporário e distribuição. Ele teria fornecido veículos de sua própria empresa para o transporte das cargas e foi visto distribuindo cestas diretamente de caminhões para outros veículos em locais privados.

Armando José de Brito teria sido identificado por testemunhas e vídeos transportando cestas básicas em sua própria caminhonete e em uma carretinha acoplada, em dezembro de 2025. Ele frequentava os locais de descarregamento ao lado dos articuladores centrais do esquema (Benier e Renatinho) para realizar as retiradas. Descarregamento foi registrado em vídeo e confirmado pelos depoimentos de Mauro Mello, que teria fornecido uma chácara, e o motorista Joel Bonfim Neto.

Já Adilson Tavares Lopes, ao admitir ter retirado aproximadamente 100 cestas básicas do depósito ligado ao vereador Pebinha, após ser avisado por um articulador que havia carga “para vereadores”, passou da condição de testemunha para investigado. Ele ainda teria feito a redistribuição informal desses bens para aldeias e pastores sem autorização da Assistência Social. O pretexto de distribuição social não foi considerado, já que isso deveria ser documentado e perpassado pela pasta responsável, a Secretaria de Estado de Assistência Social e Cidadania de Mato Grosso (SETASC).

Por fim, Elton Melo Marques é mencionado como um dos agentes políticos que recebia as cestas desviadas e mantinha contato telefônico com operadores do esquema para tratar da movimentação das cargas.

A representação imputa aos parlamentares os crimes de peculato-desvio, associação criminosa e uso de documento falso.

Por meio do depoimento de Mello e Joel, além dos registros visuais captados pelas câmeras de segurança da chácara, as autoridades identificaram a movimentação de caminhões e veículos de passeio entre os dias 4 e 11 de dezembro de 2025, período correspondente às tratativas entre Mello e Benier.

O proprietário e o motorista confirmaram a participação de agentes políticos e seus familiares na retirada dos suprimentos originários da SETASC, inclusive o filho do vereador Armando realizando o descarregamento.  As provas detalham o papel central de Benier Marcos na gestão das entregas, utilizando conversas de aplicativo para monitorar o fluxo das mercadorias.

Conforme a representação confeccionada pela 1ª Delegacia de Polícia Civil do município, o esquema se dividia em cinco núcleos. O primeiro, de liderança e coordenação, seria composto pelos servidores Benier e Renato, conhecido como Renatinho.

Compõe o grupo distributivo e de apoio ao fluxo ilícito os vereadores referidos, os quais, segundo a polícia, teriam participado, em diferentes graus, da retirada, armazenamento, apoio logístico e/ou distribuição possivelmente fraudulenta das cestas básicas desviadas, usando de influência pública local e mantendo contato com integrantes do núcleo central do esquema.

No setor operacional e documental, a polícia aponta para Juliana da Silva Matos e o motorista Valdeci de Souza Gomes, acusados de assinarem termos de entrega, e serem responsáveis legais, mas sem procuração ou autorização, de retirar cargas ou usaram documentos sem legitimidade formal.

Neuraci Lisboa da Silva França, seu esposo Paulo Fernando França, Juliana Mattos e seu marido Frank da Silva, bem como as associações ou entidades utilizadas no fluxo investigado, notadamente Associação Amigos dos Animais e Cozinha da Neura, além de outras entidades eventualmente identificadas no curso das diligências, integrariam o núcleo associativo para dar suporte ao esquema.

Por fim, a polícia representou contra cerne que seria incumbido de providenciar os locais de armazenamento, descarga e possível ocultação de provas.

Neste meio, as investigações apontam um imóvel ligado ao vereador Valdeir Leite, o Pebinha; uma casa do servidor Renatinho; uma chácara vinculada a associação Amigos dos Animais; sede de uma cozinha; casa do Benier; casa e estabelecimento vinculado ao irmão de Renatinho; residências, gabinetes, empresas e locais de atuação funcional dos investigados; residência de Valdeci de Souza Gomes; residências de Neuraci, Juliana e respectivos cônjuges.

Segundo a apuração, aproximadamente 13 mil cestas básicas e kits de higiene e limpeza podem ter sido desviados de sua finalidade pública, causando prejuízo estimado em R$ 1,95 milhão, além do impacto social provocado pela ausência desses itens às famílias beneficiárias.

Após representação da Polícia Civil e manifestação favorável do Ministério Público, o Poder Judiciário autorizou o cumprimento de mandados de busca e apreensão, quebras de sigilo, afastamento de função pública e outras medidas cautelares para preservar provas e aprofundar as investigações. (Olhar Direto)

Veja vídeo: