Expansão do Comando Vermelho causa medo e insegurança no país

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Tudo ocorreu em questão de instantes. Paulo Henrique da Silva estava em frente à própria casa quando foi morto a tiros no bairro Benedito Bentes, em Maceió (AL).

Nem o padrasto, nem a companheira, os dois ao lado dele naquele momento, puderam socorrê-lo. Não houve tempo para nada. Era setembro de 2022.

Segundo o Ministério Público de Alagoas, Paulo foi assassinado “pelo simples fato de estar na porta de casa no momento em que os indiciados passavam pelo local”.

A região é dominada pelo Comando Vermelho e, de acordo com testemunhas, membros da facção “são conhecidos por aterrorizar a localidade, roubar e furtar casas de moradores e atirar quando passam pela rua, sem se importar com quem vai ser atingido”. Foi assim com Paulo.

Duas pessoas foram condenadas pelo homicídio e também por coação contra a mãe da vítima —dias após o assassinato, os autores dos disparos foram até a residência dela e ameaçaram-na de morte.

Sílvio Renato Silva pegou 20 anos de prisão. Wilis da Silva Misael, 26 anos.

A Defensoria Pública de Alagoas, que atuou em nome de Sílvio Renato, afirmou que acompanha o caso e segue prestando o atendimento jurídico necessário para a garantia dos direitos do cidadão.

A defesa de Wilis, por sua vez, disse acreditar na reversão da condenação porque, em sua avaliação, a sentença foi contrária à prova dos autos.

Não são casos isolados, e episódios do gênero revelam que a rotina de medo e insegurança bate cada vez mais à porta de brasileiros que vivem em territórios controlados pelo Comando Vermelho.

No fim de 2025, a Vara Colegiada dos Crimes Organizados de São Luís (MA) condenou quatro acusados de elo com a facção que expulsaram mãe e filha de casa, na Vila Funil, pela suspeita —infundada segundo a sentença— de que elas teriam repassado informações a grupos rivais.

O caso ocorreu em 2021. A filha foi agredida e ameaçada com canivete enquanto seus filhos, na época com dois e quatro anos, eram intimidados por dois adolescentes que portavam armas de fogo.

Ambas deixaram o imóvel “mediante arremesso de pedras e ameaças diretas de morte proferidas pelos denunciados, reforçando o domínio territorial da organização criminosa”, diz a decisão.

“Associar-se a uma organização pequena que não tem poder financeiro e bélico é diverso de se associar ao Comando Vermelho. Quem ingressa nesta facção não está violando apenas a paz pública, mas agindo com o claro propósito de enfrentar o Estado”, afirma o texto.

A excepcionalidade em torno da organização criminosa é citada com frequência em nas dezenas de ações analisadas pela reportagem –  foi o que levou a Justiça do Amazonas a determinar em 3 de outubro a transferência de 15 presos sob custódia em Juruá para a penitenciária de Manaus.

A medida veio um homem apontado como um “criminoso de altíssima periculosidade faccionado ao Comando Vermelho”, invadir a unidade e ferir um policial com uma faca para tentar resgatar detentos ligados à facção.

Não conseguiu, mas o agente precisou levar pontos no braço em razão do ferimento.

A Justiça citou risco de rebelião ao autorizar a transferência e disse que a medida evitaria um “banho de sangue”.

O avanço do Comando Vermelho se estende também a outros estados.

Investigação conduzida pela Promotoria Especializada em Organizações Criminosas de Teresina prendeu em 2024 um homem apontado como principal líder da facção no Piauí.

O inquérito foi instaurado após denúncia de que ele “rasgou a camisa do PCC [Primeiro Comando da Capital] e está instalando o Comando Vermelho na zona norte de Teresina”.

O homem é egresso de uma organização rival, a Bonde dos 40, com a qual o Comando Vermelho “hoje rivaliza por meio de assassinatos recíprocos”, afirma investigação obtida pela Folha.

Mandados de busca cumpridos num sítio dele apreenderam “vasto material bélico”, nas palavras da Promotoria.

O arsenal inclui um fuzil de assalto com 31 cartuchos, um revólver .38 com vasta quantidade de munição e uma pistola semiautomática calibre .40 com 28 pentes.

Se o poder estatal busca por norma combater o crime organizado, em outras ele pode ser um agente facilitador.

É o que afirma o Ministério Público de Mato Grosso, em ação ajuizada em julho de 2025 ano, que acusa um ex-diretor de um centro de ressocialização em Várzea Grande de facilitar a fuga de detentos ligados ao Comando Vermelho.

A denúncia diz que ele não apenas atuou como auxiliar da fuga como contribuiu com o sucesso da operação.

O juiz da Vara de Execuções Penais, por exemplo, só soube da fuga três dias depois por meio de um programa de televisão.

Segundo a Promotoria, há indícios de que ele tenha utilizado o cargo na época “em detrimento da integridade do sistema penitenciário”. O ex-diretor está preso preventivamente na cadeia pública da Chapada dos Guimarães.

CASOS DE VIOLÊNCIA COM O CV:

Maceió (AL) Paulo Henrique da Silva foi morto a tiros em 2022, em frente à própria casa, no bairro Benedito Bentes, área dominada pelo Comando Vermelho.

Segundo o Ministério Público, ele foi assassinado “pelo simples fato de estar na porta de casa” quando os criminosos passaram atirando.

São Luís (MA) Quatro integrantes do Comando Vermelho foram condenados por expulsar mãe e filha de casa, em 2021, na Vila Funil, após suspeita infundada de que teriam repassado informações a rivais.

Vítimas foram agredidas e obrigadas a deixar o imóvel, enquanto crianças eram intimidadas por adolescentes armados.

Juruá/Manaus (AM) Justiça determinou a transferência de 15 presos após um homem apontado como integrante de alta periculosidade do Comando Vermelho invadir a unidade prisional de Juruá e ferir um policial durante tentativa de resgate de detentos da facção.

Teresina (PI) Investigação da Promotoria Especializada em Organizações Criminosas prendeu homem apontado como principal líder do Comando Vermelho no Piauí.

Segundo o Ministério Público, ele deixou a facção rival Bonde dos 40 e instalou o CV na zona norte de Teresina.

Um arsenal com fuzil, pistolas e munições foi apreendido em seu sítio

Várzea Grande (MT) O Ministério Público denunciou um ex-diretor de um Centro de ressocialização acusado de facilitar a fuga de detentos ligados ao Comando Vermelho e omitir o ocorrido às autoridades.

A Promotoria diz que ele usou o cargo em prejuízo do sistema penitenciário. (Diário de Cuiabá)