Determinado a entrar no meio político para lutar por políticas públicas voltadas à segurança e ao combate à violência contra a mulher, Regivaldo Cardoso, viúvo de Cleci Calvi Cardoso e pai de Miliane, 19, Manuela, 13, e Melissa, 10, assassinadas em novembro de 2023, em Sorriso (420 km ao norte de Cuiabá), é pré-candidato a deputado federal pelo partido Novo. O anúncio foi formalizado na quarta-feira (26), poucos dias após a chacina da família completar 2 anos.
Ao Gazeta Digital, o ex-caminhoneiro, que não exerce mais a profissão após o trauma diante do crime brutal, conta sobre suas pretensões políticas e foco em entrar na vida pública para cobrar a efetiva implementação do cadastro nacional de estupradores e pedófilos, sancionado por meio da Lei 15.035, de 27 de novembro de 2024, que leva o nome de sua família, Lei Mulheres Calvi Cardoso.
“Até agora, nada do cadastro. O que adianta ter uma lei aprovada? Já está fazendo aniversário da lei, e o cadastro não existe? A gente não vê movimentação nenhuma para que ele seja implementado. O presidente vetou a melhor parte do projeto, que seria o nome do indivíduo. Agora, só ficará o CPF e enquanto ele estiver preso. Como você vai saber o CPF das pessoas que moram perto da sua casa para consultar? A pessoa não vai te dar. Eu penso que deveria ter nome e foto de quem cometeu crimes sexuais”, expõe.
Em sua avaliação, o cadastro deveria constar os dados mesmo após o cumprimento da pena, pois acredita na reincidência dos criminosos sexuais e homicidas e cita, como exemplo, o próprio Gilberto Anjos, assassino de sua família, que já havia cometido outro homicídio e estupro antes do crime que vitimou sua esposa e filhas. O criminoso foi condenado por ambos delitos.
Regis, como é chamado, conta que a determinação de entrar para a política se deve exclusivamente ao fato ocorrido com sua família e rechaça qualquer possibilidade de estar “usando” a tragédia para promoção pessoal. Acrescenta ainda estar preparado para eventuais críticas em função de sua decisão.
“O que eu mais queria na minha vida era estar trabalhando, estar com a minha família. Uma vida normal. Nunca pretendia ser político. Nunca quis ser conhecido. Só queria trabalhar, dar uma vida boa para a minha família, escola, boa saúde a elas, nunca quis a vida política. Mas eu acho que é uma missão, para que elas não sejam esquecidas e para evitar que outras pessoas passem por isso”, argumenta.
Ele narra que obteve certa experiência política ao trabalhar como assessor para a ex-senadora Margareth Buzetti (PP) durante o período em que a suplente esteve no mandato, tendo articulado para a aprovação da lei em suas idas a Brasília a convite da também senadora Damares Alves (PL). Após a repercussão do caso, procurou alguns partidos, mas cita que não teve atenção, tendo encontrado apoio no Novo e compactuando com as ideias da sigla.
Filiado, menciona que, se eleito, pretende defender pautas voltadas à mulher, segurança pública, combate aos “privilégios” nos presídios e buscar avanços na logística e nos transportes no estado para fortalecer o agronegócio.
Vida após o trauma
Regis conta ao Gazeta Digital que tem buscado se apegar a Deus para ter forças diariamente. Após o crime, nunca mais esteve na casa onde a família morava. Foram familiares que o auxiliaram para que móveis, roupas e brinquedos fossem retirados do local.
Como a casa era alugada, desde então deixou o local e evita sequer passar de carro em rua próxima, diante das lembranças terríveis que lhe vêm à mente.
“Não tenho coragem de voltar lá. Uma vez que passei, fui deixar o meu irmão lá perto, só que cheguei a uma quadra de distância e não tive como virar”, relembra.
Depois do crime cruel, o pré-candidato narra que passou um período de luto e culpa, remoendo porque estava viajando a trabalho quando tudo aconteceu. A tristeza tomou conta, chegando a refletir porque seus cães de guarda da raça pastor alemão não haviam atacado o assassino Gilberto, olhando para os animais e conversando por diversas vezes com eles.
Contudo, peritos afirmaram que os animais tentaram alcançá-lo e pularam, deixando marcas na parede do muro onde o criminoso subiu para acessar a casa.
O remorso foi amenizando lentamente com terapia e celebrações na igreja. O julgamento pelo Tribunal do Júri, ocorrido em agosto deste ano, auxiliou na angústia que sentia e no receio de que o algoz da família fosse liberto. Agora, quer lutar para que seja mantido preso.
Condenação
O réu Gilberto dos Anjos Rodrigues foi condenado a 225 anos de reclusão pela chacina da família Calvi Cardoso. Ele foi submetido a júri popular, no dia 7 de agosto de 2025, pelos crimes de estupro, estupro de vulnerável e feminicídio, de Cleci Calvi Cardoso e das filhas Miliane Calvi Cardoso, 19, Manuela Calvi Cardoso, 13, e Melissa Calvi Cardoso, 10, cometidos em novembro de 2023. O cumprimento da pena será inicialmente em regime fechado.
O réu acompanhou a sessão por videoconferência, já que está preso na Penitenciária Central do Estado (PCE), na capital. Contudo, não quis prestar depoimento e deixou de assistir ao júri no período vespertino, não permanecendo até o final do próprio julgamento.
O crime
O homem trabalhava em uma obra ao lado da casa das vítimas e já sondava a rotina no imóvel. Na noite do crime, ele invadiu a residência pulando o muro e acessando uma das janelas. Uma vez no local, ele estuprou e esfaqueou as vítimas, exceto a caçula. (Gazeta Digital)








